Sobre intolerãncia e Fórmula Um

8 de fevereiro de 2008

Publico aqui a coluna Warm Up publicada semanalmente no site Warm Up e redigioda pelo jornalista Flávio Gomes (na foto ao lado de seu DKW 96), que cobre automobilismo desde os anos 80.

“Tolerância com a intolerância”

“A Fórmula 1 correu pela primeira vez na África do Sul em 1962. Até 1985, sob plena vigência do apartheid — regime de segregação racial que entre 1948 e 1990 era definido por lei —, foram 21 corridas no país. Na contramão da História (com H, mesmo) e das retaliações que o resto do planeta impunha aos sul-africanos e seu odioso racismo, os carrinhos coloridos desfilavam alegremente para a elite branca local como se o esporte não tivesse nada a ver com aquilo tudo.A F-1 foi, salvo engano, a última modalidade de caráter mundial a tirar o time dos campos sangrentos da África do Sul, só voltando em 1992 e 1993, quando Frederik Willem de Klerk aboliu o apartheid. Foi o último presidente branco do país. Ganhou um prêmio Nobel por ter conduzido a transição. Foi recebê-lo junto com Nelson Mandela.Mas foram só dois anos no renovado e belíssimo circuito de Kyalami, nas bordas de Johannesburgo. Porque em 1994 aconteceram as primeiras eleições livres com a participação da população negra, e a F-1 ficou com medinho de deslocar suas tendas para lá, achando que conflitos tribais poderiam ameaçar seu espetáculo. E a África do Sul, que passou a ser governada pela maioria negra, nunca mais recebeu uma etapa do Mundial.(Lembro bem dessas duas corridas e do meu espanto ao chegar a Kyalami dias antes da prova — fiquei por lá duas semanas — e ver apenas operários negros trabalhando na finalização do autódromo. Nas arquibancadas, nos dias de treino e corrida, só brancos. O apartheid, na prática, não tinha terminado. Na época, encontrei um brasileiro em fim de carreira jogando futebol no país, Jaiminho, ex-São Paulo. Era negro. Saímos para tomar uma cerveja com um jornalista que conheci na cidade, um rapaz de Curitiba. Fomos a um bar de brancos. Não nos deixaram entrar. Não nos deixaram nem sair do carro. Uns caras vieram de dentro do bar e urinaram na porta porque estávamos junto com um negro. Horror total.) Os tempos são outros. Não é porque os negros estão no poder que a F-1 não corre mais na África do Sul. Muita coisa aconteceu, o eixo financeiro do planeta deslocou-se para o Oriente, e, como se sabe, tio Bernie vai aonde o dinheiro está. E havia dinheiro na África do Sul do apartheid, como sempre houve: ouro, diamante, urânio, cobre, manganês… Ainda há, é um país rico. Mas, hoje, bem menos do que a China, Abu Dhabi ou Índia.Pelo passado indiferente ao apartheid é que não se deve esperar da F-1 nenhuma medida radical diante dos episódios observados em Valência e Barcelona nas últimas semanas. A F-1 não está nem aí. Mas deveria. Se é verdade que as manifestações racistas contra Hamilton foram protagonizadas por poucas pessoas, uma minoria, não é menos verdade que essa minoria teve total liberdade de ação para cometer suas bizarrices. E ninguém foi punido ou responsabilizado por isso.Cancelar o GP da Espanha seria decisão das mais educativas. A Europa branca anda abusando de sua ojeriza a imigrantes e raças que considera inferiores. São ações isoladas, mas cada vez mais freqüentes. E não se deve ser tolerante com a intolerância”.