Repercussão 01 – Drogas nas pistas

23 de fevereiro de 2008

Como não poderia deixar de ser, jornalistas que cobrem automobilismo escreveram em suas colunas semanais sobre a denúncia do piloto Renato Russo. Reproduzo nesta postagem a coluna do jornalista Flávio Gomes, publicada no site warmup nesta sexta-feira(22).

A droga da Stock – Flavio Gomes

Renato Russo, 40 anos, piloto da Stock Light, fez gravíssimas denúncias em entrevista ao jornal “O Estado de S.Paulo” nesta semana. Disse, em resumo, que pilotos da categoria se drogam e alguns ingerem bebidas alcoólicas antes das corridas.

Era Russo quem pilotava o carro que bateu no de Rafael Sperafico em Interlagos na última etapa do campeonato do ano passado. Sperafico morreu. Renato perdeu 30% do intestino.

Dois meses depois, fez a denúncia. Imediatamente, a “família Stock”, representada pela empresa que organiza a competição — a Vicar —, encomendou à sua assessoria de imprensa uma nota de repúdio às declarações de Russo.

A CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo) se pronunciou depois através de um comunicado à imprensa. Mas, no dia da publicação da entrevista, em seu site, na área de “notas oficiais”, quem procurava saber o que a entidade tinha a dizer oficialmente sobre qualquer assunto encontrava apenas detalhes sobre sua parceria com uma locadora de automóveis e com uma companhia aérea. E também ficava sabendo que pilotos cadastrados desfrutam de “diversas facilidades”, conclamando todos a entrarem em contato com suas federações de “automomobilismo”. Assim mesmo, com a linda sílaba “mo” repetida, para marcar bem.

Nenhuma palavra, nem da Vicar, nem da CBA, sobre investigar as denúncias. Garantia, por parte da Stock, que “neste ano serão feitos exames antidoping”. A mesma promessa foi feita em 2006 e 2007. Depois a CBA veio a público para dizer que neste ano serão feitos, sim, os exames. Mas seu presidente falou que não precisava de nada disso, e que só será realizado o antidoping por causa do barulho que as declarações de Russo causaram. Por ele, tudo ficava como está.

Russo não tem como provar nada. E depois de falar pela primeira vez, ameaçado de punições porque a Stock proíbe seus pilotos de criticarem a categoria, voltou atrás e disse que as denúncias eram sobre o automobilismo em geral, não especificamente sobre a Stock. Um banana, em resumo. O que não apaga o impacto e a gravidade do que disse antes.

E é fácil verificar se o que Russo diz é verdade — não só ele, porque Cacá Bueno, em maio do ano passado, fez acusações do mesmo tipo numa entrevista à revista “Playboy”, afirmando que se houvesse antidoping na Stock, muito piloto seria proibido de correr. Para escalarecer a questão, bastaria à CBA e à Vicar convocarem, imediatamente, os 60 ou 70 pilotos das duas Stocks (V8 e Light) para colher material. Fios de cabelo, por exemplo. Qualquer exame, hoje, detecta traços de substâncias proibidas no organismo se elas tiverem sido consumidas nos últimos três meses. Qualquer entidade que leve a sério aquilo que organiza e promove faria isso.

Mas pedir seriedade dessa gente é exigir demais. Mais fácil é repudiar quem denunciou e oferecer detalhes da parceria com a locadora. Um último detalhe: Russo será julgado pela comissão disciplinar da CBA. Bueno, apesar de ter dito a mesma coisa, não. A justificativa do presidente da CBA: ele não lê a “Playboy”.

Flavio Gomes
flaviog@warmup.com.br
Além de editor do site www.warmup.com.br, Flávio Gomes comenta automobilismo pela ESPN Brasil. às terças-feiras, sempre às 22h participa do programa Limite.