Repercussão 02 – Drogas nas pistas

23 de fevereiro de 2008

Quem também publicou coluna sobre a denúncia do polito Renato Russo foi o experiente jornalista Reginaldo Leme, da TV Globo, Estado de São Paulo e também do site Warm-Up
onde, as sextas-feiras publica sua coluna Grand Prix.

Fora de lógica – Reginaldo Leme

O assunto do momento no automobilismo são as declarações do piloto Renato Russo sobre uso de bebidas alcoólicas e drogas. Além de não haver uma explicação lógica, pela impossibilidade de trazer qualquer vantagem na pilotagem de um carro, eu sou um daqueles que se sentiu bastante surpreso com as declarações. Convivendo com os bastidores do automobilismo há 36 anos, eu nunca vi e nunca soube de um único caso. Já ouvi histórias sobre isso em corridas de 24 horas de duração em tempos distantes que eu não conheci, como as que diziam ser o lago de Interlagos um depósito de peças e motores que haviam sido trocados irregularmente na escuridão da madrugada. Uma vez contratamos câmeras e mergulhadores para tentar mostrar isso na TV e, depois de horas perdidas, nada foi encontrado.

Estou falando de gente que, hipoteticamente, usaria drogas ou bebidas, para entrar na pista e correr. Nada a ver com o que cada um desses pilotos faz na sua vida particular fora das pistas. Na repercussão da reportagem do “Estado de S. Paulo” (da repórter Erica Hideshima), a gente viu, nos últimos dias, a indignação de veteranos como Paulo Gomes, com uma carreira de mais de 30 anos como piloto e, hoje, tem dois filhos correndo. Depois, ouvi Wilsinho Fittipaldi, 40 anos de automobilismo, sem jamais ter conhecido um caso, mesmo numa época em que não havia o profissionalismo de hoje.

Ser profissional de automobilismo, nos tempos atuais, requer dieta alimentar, muita ginástica aeróbica para aumentar a capacidade cardiovascular, da qual depende até mesmo o poder de concentração, musculação do tipo que exige mais agilidade do que carga de peso, disciplina, dormir bem. Na idade deles, claro, a balada vai existir, mas na hora certa. Quase todos – deve haver exceção, mas não me lembro de uma – recebem orientação de preparadores físicos e nutricionistas que trabalham específicamente com atletas do esporte a motor. Eles são realmente atletas. Sem explosão física, que não é o caso, mas com grande resistência para suportar corridas em que, no caso da Stock Car, dentro do cockpit fechado, eles enfrentam temperaturas próximas dos 60°C. Como me conta o médico Dino Altmann, que atua no GP do Brasil de F-1 e na Stock Car, com o esforço físico da pilotagem, acima dos 40°C, um piloto pode até delirar se não tiver uma boa condição física, aumentando em 30% o risco de cometer um erro.

Pelo bem da competição, como em qualquer outro esporte, no automobilismo deve existir o exame antidoping. Que é uma coisa muito nova até mesmo na F-1. Isso vai acontecer em breve na Stock Car, que é a mais profissionalizada, mas não causado por suspeitas como as levantadas por Renato Russo. O objetivo nem é o doping intencional, mas aquele que é causado pela desinformação. A lista de substâncias proibidas é enorme e poucos sabem o que precisa ser evitado. Foi com o mesmo objetivo que o exame passou a ser feito nas categorias mais importantes. Na F-3000, o checo Tomas Enge acabou sendo pego em um exame desses por ser um sujeito que costumava fumar maconha, não necessariamente usada na época da corrida em que foi feito o exame. Antes, eu só tinha ouvido falar disso nos anos 80 e o alvo era Nigel Mansell, que levantou suspeita por suas costumeiras trapalhadas. Consta que, para tirar dúvidas, foi feito um exame. Nada encontrado. O bicho era doidão mesmo por natureza.

Reginaldo Leme – rleme@warmup.br