Coluna Meia Linha

5 de setembro de 2008

Acompanhe a coluna Semanal “MEIA LINHA”, por Marco Antônio Furtado

“Espírito de vira latas”
Olimpíadas chegam ao seu final. Abertura e final imperdíveis, espetáculo fantástico. No campo das disputas os atletas surpreendem o mundo, atingindo desempenhos há pouco tempo considerados impossíveis.
Os jogos olímpicos me causam um efeito de um SPA esportivo. É a energia de uma Daiane dos Santos, o sorriso do Cielo, a confiança da Maurren, corpos e mentes sarados a queimarem a minha teimosa gordurinha futebolística.
Na TV, debate sobre o desempenho brasileiro nos jogos. Fico vendo debate chocho, e de repente o pseudo psicólogo, sociólogo, antropólogo, animador de circo sem empanada, locutor titular da “Vênus Platinada”, como que querendo esquentar o programa sai com esta: ”O Brasil não consegue bom desempenho nas olimpíadas por falta de força mental”.
A sustentação era que o nosso sangue latino tremia perante o Anglo Saxão. Cheirou-me a tese Nazi-Fascista pura, e para tal recorro a meu amigo infalível nessas horas, o controle remoto. Bastou um clique e pronto: estava tudo resolvido. Mas o pior não foi ouvir isso só do “Babão Doendo”. Dias depois vejo a capa de uma das grandes revistas semanais do Brasil endossando a mesma tese.
Quer dizer que a Marta duas vezes seguida escolhida a melhor do mundo, que eles mesmos diziam que tinha bola para jogar até no masculino, perdeu para as americanas por falta de força mental? Os caras, na exaltação de sua tese, chegam ao absurdo de nos querer incutir que as americanas, tal como uma máquina computarizada, haviam se programado para só ganhar o jogo na prorrogação. Genial, as americanas aguardaram o momento exato de dar o bote e quando viram que as brasileiras não tinham mais forças, foram lá e pimba, diziam. Como se isso fosse possível num esporte tão imponderável como o futebol. Só quem faz uma afirmação dessas é quem nunca deu um chute nem numa quenga de côco.
Na verdade é que as americanas, ao verem o baile que as brasileiras deram nas alemãs, então campeãs olímpicas, fizeram o que qualquer equipe bem montada faz: reconhece o poderio do adversário, arma um sistema de marcação forte e tenta armar oscontra-ataques. Tanto o gol americano poderia ter saído antes, como poderíamos ter metido uma enfiada nelas, como fizemos com a Alemanha. Aliás, porque faltou força mental contra as americanas, e não faltou contra as puro-sangue saxônicas alemãs? E o vôlei masculino, que ganhou do mundo todo nesses últimos anos? A tal da força mental só faltou contra os americanos? Será que não entendem que os americanos, como nós também, podem estudar o adversário, treinar arduamente e conseguir suas vitórias? E como ficam os Quenianos, Marroquinos e Etíopes do atletismo frente a essa tal de força mental Anglo Saxônicas?
Essa besteira toda me lembra algo parecido, que difundiram na década de 50. Dizia-se que o Brasil não vencia as copas do mundo de futebol porque seus atletas possuíam espírito de vira latas, algo mais ou menos assim, como falta de força mental. Eram bons buldogues, mas tinham espírito de vira-latas. E olha que até ali só haviam sido disputadas cinco copas, e o Brasil já havia sido vice em uma, e terceiro colocado em outra. Fizeram até um manual de normas de comportamento. Contrataram um Psicólogo para fazer a tal avaliação mental. Entre os jogadores havia um, com cara de caboclo, analfabeto, e que não entendia o que tinha a ver entre jogar futebol e desenhar casinhas, árvores e bonecos. Resultado: O senhor Manoel dos Santos não tinha espírito para compor a seleção brasileira de futebol. CORTADO! Acontece que seu Mané tinha lá seus fãs, e fãs de prestígio: um certo Nilton Santos e outro, um tal de Valdir Pereira, conhecido como Didi. Eles foram à alta direção da CBD e protestaram contra o corte do Mané. Resultado: com o jeitinho brasileiro, que vem de antes daquela época, o Mané foi reincorporado ao elenco. O tal Manoel dos Santos era mais conhecido como Garrincha. O resto todo mundo sabe, deu no que deu.