Entrevista – Lucas Di Grassi

21 de outubro de 2008

Nascido em São Paulo em 11 de agosto de 1984, o entrevistado do mês aqui no Carros e Corridas é apontado como uma das maiores revelações do automobilismo internacional.

Lucas Di Grassi surpreendeu muita gente  quando acumulou a função de piloto de testes da Renault e disputou 14 das 20 corridas da GP2 terminando em terceiro, atrás apenas do campeão Giorgio Pantano e de Bruno Senna.

Acompanhe a entrevista que Lucas Di Grassi concedeu ao Carros e Corridas:

Carros e Corridas – Você iniciou sua carreira no Kart, que é grande escola para a maioria dos pilotos. O que de fato o motivou a pilotar Kart? Foi lá que você viu que “levava” jeito para pilotar?

Lucas Di Grassi – Meu pai era um piloto de kart amador. Um dia ele me levou ao kartódromo de Itu, onde temos um sítio. Eu quis dar umas voltas e acabei sendo mais rápido do que ele! Foi nesse dia que começou a minha carreira, e acabou a dele. rsrsrsrsrsrs 

Carros e Corridas – Seu início de carreira foi acompanhado pelo seu pai. Você considera que isso ajudou você a se livrar de problemas com contratos?

Lucas Di Grassi – Sim, bastante. Meu pai é um empresário experiente. Ele sempre teve muito cuidado com essas coisas. Sei que ele me ajudou bastante. E sei também que outros pilotos não tiveram essa proteção. 

Carros e Corridas – Você é um dos poucos brasileiros que conquistou o GP de Macau de Fórmula Três, uma referência para qualquer piloto que almeja a carreira internacional. Naquele momento você se deu conta de que tinha percorrido um grande caminho até então?

Lucas Di Grassi – Macau foi um marco na minha vida. Minha carreira se divide em antes e depois de Macau. Mesmo que eu tenha competido por uma equipe fraca de GP2 no ano seguinte, a vitória em Macau ficou na cabeça das pessoas e me ajudou a seguir em frente. 

Carros e Corridas – A vitória em Macau abriu quais portas?

Lucas Di Grassi – Não vou ser modesto nessa resposta: não é qualquer um que ganha Macau. Por isso, todas as equipes sabem que aquele cara pode ser alguém acima da média, pelo menos. 

Carros e Corridas – Depois da  Fórmula Três você ingressou no programa de desenvolvimento de pilotos da Renault. Que importância isso representou para você? A partir daí você começou a achar que estaria mais perto da Fórmula Um, até ser contratado como piloto de testes?

Lucas Di Grassi – O programa ajuda muito e sem ele eu não teria continuado minha carreira simplesmente porque não teria dinheiro ou patrocínio. Mas ele é apenas um passaporte que te dão para poder chegar ao próximo estágio da sua carreira (seja ele a F-3, GP2, F-3000 ou F-1). Com o passaporte na mão, é você quem tem que andar até o objetivo. Então, o programa te dá tranqüilidade de que aquele ano está garantido financeiramente, mas por outro lado, os gestores do programa te cobram muito. Isso te ajuda a crescer e a ficar melhor. 

Carros e Corridas – Ter a carreira gerenciada pela Renault te deixa mais confortável quanto a possibilidade de entrar na Fórmula Um?

Lucas Di Grassi – Me dá segurança de que estou em boas mãos. Mas o jogo da F-1 é complexo. Não depende só disso. 

Carros e Corridas – Sem dar margens para boatos e sendo um pouco pretensioso na pergunta, em 2009 os brasileiros vão poder vê-lo na Fórmula Um? Onde há verdade nessas informações sobre a substituição de Nelsinho Piquet?

Lucas Di Grassi – Eu estou próximo de me tornar piloto titular. Mas na F-1 qualquer coisa dita antes de assinar um contrato não vale muito. Os interesses são grandes e dinâmicos. Eu sou apenas um piloto que acredita no próprio potencial. Minha força é meu trabalho, mais nada. Quanto ao Nelsinho, eu não posso responder sobre a situação dele. Na verdade, o melhor é falar com ele próprio sobre isso. 

Carros e Corridas – Esse ano você assombrou o mundo automobilístico ao disputar a GP2 e, depois de seis etapas iniciais, você estreou no campeonato e disputou o segundo lugar com Bruno Senna, mostrando um índice de regularidade e aproveitamento inigualáveis. Você não acha que disputar um outro campeonato na GP2 seria pouco atrativo para você?

Lucas Di Grassi – Eu estou pronto para a F-1. Então, é isso o que gostaria de fazer em 2009. 

Carros e Corridas – Todos sabem que a Fórmula Um costuma ser cruel quando alguém não consegue mostrar resultados. O piloto precisa ser “frio” o bastante para não ser atingido pelas excessivas pressões. Você se considera preparado para enfrentar esse desafio?

Lucas Di Grassi – Sim, acho que estou preparado. Como nunca tive as melhores condições em categoria alguma, sempre sofri pressões, seja por não ter dinheiro, seja porque tinha que dar resultado ou estava fora. Então, acho que não vai ser problema. 

Carros e Corridas – Qual a avaliação que você faz do atual momento da Fórmula Um, que depois de Schumacher passou a ter novos pilotos vencedores. Você acredita que a F-1 com menos tecnologia de controle do carro é mesmo mais competitiva?

Lucas Di Grassi – Sim, eu acho mais competitiva porque coloca mais ênfase no piloto. 

Carros e CorridasMassa ou Hamilton? Por quê?

Lucas Di Grassi – Massa, sem dúvida. Porque é um tremendo piloto, e um grande amigo desde os tempos do kart. Como é mais velho, sempre esteve à minha frente, mas sempre foi um parceiro, apesar de ter mais status. 

Carros e Corridas– Nesses anos todos de carreira internacional, ficando longe da família, você já teve momentos que pensou em desistir e voltar para o Brasil?

Lucas Di Grassi – Sim, vários. Mas essa é só a primeira batalha que um piloto no exterior tem que vencer. 

Carros e Corridas – Você tem acompanhado o automobilismo brasileiro? O que você destacaria?

Lucas Di Grassi – Destaco apenas a decadência. Os brasileiros têm que acordar, ou não teremos mais pilotos no exterior em breve. 

Carros e Corridas – Uma vez entrevistando o Rubens Barrichelo, em 1993, ele revelou que tinha o sonho de ser campeão de Fórmula Um até o ano 2000. Você também sonha com esse título?

Lucas Di Grassi – Todo piloto profissional sonha com isso. É o objetivo máximo. Mas você tem que ser realista. Só chega lá se tiver talento e oportunidades. Eu ainda sonho. Mas sei que é um sonho. Para virar realidade, ainda tenho que comer muito arroz e feijão. 

Carros e Corridas – Você acha que o brasileiro ainda pressiona muito os pilotos de Fórmula Um por conta dos títulos de Emerson, Piquet e Senna ?

Lucas Di Grassi – Sim. Acho que nós, brasileiros, nos acostumamos mal. Mas acho que deveríamos ficar orgulhosos. Sempre temos dois ou três pilotos na F-1, que é a elite do automobilismo. É ou não é um privilégio? 

Carros e Corridas – Para encerrar. Qual o conselho que você daria a quem quer seguir uma carreira no automobilismo, em qualquer categoria?

Lucas Di Grassi – Se você realmente quer ser piloto, não desista nunca. Mas tenha a cabeça no lugar. Queimar o patrimônio da família em um esporte caro como esse é burrice. Tente ser profissional desde o começo. Se você é bom de volante, tente ser bom também de marketing, de retorno, de contatos. Há muitos profissionais no mercado que prestam assessoria e podem ajudar.

Fotos: Site oficial do piloto – www.lucasdigrassi.com.br

Agradecimentos: Rodolpho Siqueira e Suely Frota

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