Entrevista – Djalma Fogaça

10 de janeiro de 2009

Como a maioria dos pilotos, Djalma Fogaça iniciou oficialmente a sua carreira no automobilismo através do Kart, onde sagrou-se campeão paulista em 1982. Hoje, aos 29 anos de carreira esse sorocabano mantém a mesma vontade de competir nas pistas brasileiras. Em um bate-papo aberto, o nosso “Caipira Voador” solta o verbo. Entre relatos de sua trajetória Fogaça dispara contra a Confederação Brasileira de Automobilismo e sonha com sua vitórias e de seu filho. Acompanhe no Carros e Corridas a entrevista do mês com Djalma Fogaça.

Carros e Corridas – Na década de 1980 você foi um dos pilotos que despontou na Fórmula Ford que destacava pela competitividade. O que ficou daquela época?

Djalma Fogaça– Ficou a lembrança mesmo. Foi uma época de ouro. A Fórmula Ford na época reunia grids de 30 a 40 carros por etapa. Lembro de uma corrida no traçado antigo de Interlagos, que media quase 8 km , e que fiz o 12º tempo, tomando oito décimos do pole. Trabalhamos a noite toda pra tirar essa diferença. Imagina, oito décimos em uma pista de 8 km, na realidade já estávamos competitivos! Lembro essas coisas, foi uma vida nessa categoria. Infelizmente o tempo passa muito rápido, mas as lembranças e histórias são fantásticas.

CC – Da Fórmula Ford dos anos 80 para hoje, você não acha que as montadoras deviam dar mais apoio a categorias formadoras de pilotos?

DF – Eu acho sim, mas entre achar e as montadoras comparecerem, existe uma diferença muito grande. Na realidade, o que falta mesmo é um empenho maior. Aliás, deixa eu corrigir, falta empenho por parte da CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo). Essa instituição se gaba de muitas coisas, mas que categorias existem hoje de fato no Brasil? Só duas: Formula Truck e Stock Car V8. O resto é o cocô do cavalo do bandido. E essas duas categorias são dirigidas por empresas que nada tem a ver com Confederação, apadrinhamento ou política alguma. Então, nosso forte, que sempre foram as categorias de monopostos (fórmulas), onde se preparava o piloto, já não existem mais. O futuro do Brasil na F1 vai ser cada dia mais difícil, porque hoje dependemos de pilotos com pais abastados que vão fazer carreira lá fora. E nesse tempo todo que milito nesse esporte, sempre pude notar que desses endinheirados, 99% não guiam nada. Então, essas categorias fazem uma falta tremenda.

CC – Após ter conquistado o campeonato nacional de Fórmula Ford em 1988, em 1991 você venceu o GP de Imola de Fórmula Opel. Essa conquista fez você sonhar com uma carreira internacional?

DF– Fez sim, mas foi um grande erro ter direcionado minha carreira para a Europa. Eu tinha o sonho de chegar na Formula Um, só faltou alguém com experiência para bater em meu ombro e me dizer: “Amigo, você tem 27 anos, e aqui só vai dar dinheiro aos donos de equipes”. Eu não tive esse cara. Eu tinha grana de patrocínio pra correr aquele ano, por tudo o que eu já tinha feito aqui no Brasil. Então, eu tinha uma bala só na agulha, não podia errar o tiro. Infelizmente errei. Talvez se tivesse colocado essa grana na América (EUA) tivesse me dado bem, ou podia ser que tivesse dado uma “cabeçada” em um muro daqueles ovais e nem aqui estivesse mais. Mas confesso que ficou uma ferida que até hoje às vezes sangra, mas paciência. O que mais sinto é saber que tinha potencial pra ir muito adiante. Até hoje encontro pessoas que falam que fui um dos caras mais rápidos que viram guiar nesse tipo de carro. Isso conforta e dói ao mesmo tempo.

CC – Houve oportunidade para você seguir carreira fora do Brasil?

DF– Houve sim. Foi em 1984 ou 1985, se não me engano. Ano em que o Ayrton Senna estreou na Lotus. Eu tinha um conhecido que era muito amigo do Ayrton e me apresentou a ele no Rio de Janeiro, em um teste de pneus que as equipes de F1 faziam na época. Ele já tinha ouvido falar de mim, pelo ano que eu tinha feito de Fórmula Fiat, que foi a categoria em que estreei em Fórmulas. Então , ele me deu um cartão, me indicando ao Ralph Firmam, que era dono da Van Diemem, fábrica pela qual o Ayrton tinha sido campeão em todas as categorias de base na Inglaterra. Ele ainda me ligou depois perguntando se eu tinha entrado em contato com o Ralph, pois ele tinha falado com ele também. Eu inventei uma desculpa qualquer, achei que não era possível, estava começando a ficar famosinho em minha cidade, que é Sorocaba, e não liguei e nem fiz força pra ir. Esse foi meu maior erro. Sempre fui muito apegado a amigos, família, e piloto que quer algo como a F1 ou F Indy, não pode ter esse sentimento.

CC – Você optou por uma carreira nacional e, juntamente com o Aurélio Batista Félix teve importante participação na criação de uma das mais conceituadas e rentáveis categorias do automobilismo nacional. Como você avalia essa sua participação no início da Fórmula Truck até o que ela representa hoje?

DF– Na realidade, isso foi uma criação pura e única do Aurélio. Fui pra essa categoria porque sai quebrado financeiramente da Stock Car. Não por culpa da Stock, de forma alguma, mas porque meu principal patrocinador na época, que era a Gessy Lever (desodorante Axe) também patrocinava o evento e os organizadores na época não fecharam com esse investidor, isso no começo de 1997. A Gessy Lever pagou a multa rescisória de meu contrato e fiquei a ver navios! E olha que eu estava em um trabalho muito bom com o Andreas Mattheis. Do nada assim, resolvi correr de caminhão. Através de pessoas ligadas a esse segmento, fui apresentado ao Aurélio. Minha impressão dele foi do tipo: esse cara é um louco (rsrs), mas ele me abriu todas as portas. Fechei um contrato com uma concessionária Volvo de Sorocaba, onde eu ganhava R$ 2.500,00 reais por mês, e minhas dívidas beiravam os R$ 30 mil por mês. Meu Deus, não gosto nem de lembrar dessa fase! Em uma conversa com o Aurélio, ele me disse que eu era importante para a categoria, pelo nome que eu tinha nas corridas aqui, e que se eu confiasse na categoria dele, dali eu ia tirar uma boa vida pra minha família. Confiei nele e fui batalhar também pra conseguir uma montadora como a Ford, em 1999, onde ninguém acreditava nesse tipo de caminhão para correr. Por coincidência, no dia de hoje acabo de fechar um contrato por mais um ano, sendo 2009 o décimo ano que estou com essa marca, que acredito que seja uma das parcerias mais longa no automobilismo tupiniquim. Talvez essa alegria que estou sentindo e compartilhando com vocês, esteja me inspirando a estar tão falador hoje! (rsrs). Devo tudo isso ao Aurélio Felix.

CC – Você tem viajado o Brasil com a F-Truck. Nessas viagens dá para acompanhar como está o automobilismo brasileiro nos campeonatos regionais? O que você destacaria?

DF– Dá sim. Penso que os dirigentes também deveriam olhar para os campeonatos regionais. Fico feliz quando chego a Fortaleza, por exemplo, e vejo a criatividade, conhecimento e garra do pessoal, sempre inovando na construção de diversos tipos de carro de competição. Chegar no Rio Grande do Sul, e ver uma categoria de Turismo com mais de 40 carros, com mídia, tv e tudo mais. Isso é sinal que dá retorno quando feito bem, e por pessoas honestas e trabalhadoras, isso pra citar só esses dois lugares.

CC – E no automobilismo basileiro? Há mais profissionalismo hoje?

DF– Olha, é difícil falar sobre isso. Claro que existem inúmeros profissionais atuando com destaque em diversas categorias, mas principalmente na Truck e na Stock. Não vou citar nomes aqui, mas são sempre os mesmos, com pouca renovação na parte de mão de obra, inclusive com equipes buscando essa mão de obra em outros países. Eu, como dono de equipe, fico um pouco decepcionado, pois mesmo dentro do meu time, não vejo uma ganância, tipo o cara querer aprender, querer subir um degrau. Parece que como em muitos outros segmentos, a pessoa se contenta em se manter no emprego, e tinha que ser diferente. Lembro que muitos anos atrás era pura paixão, não existia profissionalismo, e em muitos casos a coisa ia adiante por essa paixão, mas hoje isso não cabe mais. Tinha que estar muito, mas muito mais profissionalizado, comparado a Argentina, por exemplo. Estamos anos luz atrás nessa questão.

CC – Você tem um filho na Stock Jr. Como é ver um filho seguindo os caminhos do pai, em um esporte de risco como é o automobilismo?

DF– O Fábio, meu filho, começou a correr de carro, que é onde o cara realmente estréia no automobilismo, na última corrida de Stock Júnior de 2007. Ele tinha recém completado 16 anos, e antes da largada dele foi a corrida fatídica do jovem Rafael Sperafico. Aquilo pra mim foi um baque. Cancelaram a prova e o Fabio não correu. Naquele dia, foi uma coisa que espero nunca mais sentir em minha vida. Os boxes, mesmo antes de ser anunciada a morte do garoto Rafael, estavam fúnebres. Todos ali sentiam o mesmo que eu estava sentindo. O olhar das pessoas, o choro, a comoção, a perplexidade com a violência do acidente. Então, em dado momento olhei para o Fábio e vi um semblante de medo, pavor e ao mesmo tempo, decepção por não ter a sua corrida e, conseqüente, a estréia. Voltando pra casa, totalmente chocado, falei com ele: “filho, você não precisa disso. Vamos amadurecer essa idéia de você ser piloto, vamos esperar mais uns anos. Esse é um esporte que fazendo para sobreviver ou por hobby, o risco é o mesmo, e não quero que você corra esse risco”. A resposta veio seca e rápida: “Pai, para com essa conversa. Na minha cabeça eu já SOU piloto”. Então, não falei mais nada, e entrego na mão de Deus e peço por todos os pilotos pra que Deus olhe para todos.

CC – Com a chegada de seu filho nas pistas começa a bater a vontade de se aposentar, ou você espera dividir o cockpit com ele em alguma categoria?

DF – Isso foi um dos temas na reunião com o pessoal da Ford hoje. Em comum acordo, chegamos a decisão que esse é meu ultimo ano correndo de caminhão. Inclusive, vamos ter dois jovens pilotos oriundos do kart, que são o Yuri Alves e o Claudio Roda, que serão pilotos de teste em nosso time esse ano. Um deles vai me substituir no ano que vem, mas me aguardem. Por ser meu último ano, vou guiar com o máximo de empenho, dando 100% o tempo todo. Quero terminar por cima, como fez o grande Ingo Hofmann. Nem posso me comparar a tudo o que ele fez, mas quero terminar como ele, por cima! Quanto a correr com o Fábio, não sei. Pode ser que em alguma prova de longa duração, vejo que ele tem muita essa vontade.

CC – Já que falamos do início da carreira de seu filho, mas  o que motivou você a entrar no automobilismo? Teve de correr escondido?

DF – Entrei assim do nada, meu negócio era futebol, esporte pelo qual sou apaixonado também. No final de 1982 teve uma corrida de kart nas ruas de Sorocaba, eu nunca tinha visto um kart na vida. Fui com uma namorada ver a corrida e lembro exatamente como hoje. Se tive alguma vez um amor a primeira vista, foi pelo kart(rsrs). Fiquei alucinado! Dei um jeito de comprar escondido de meus pais um kart velho e fui andar nos loteamentos desertos em Sorocaba. A primeira vez que chegamos com aquele kart velho em Interlagos, fiquei até com vergonha. Pensei: “Não vou conseguir guiar com esses caras nunca”. Enfim, comecei e não parei mais, e já se foram 26 anos, correndo literalmente atrás de um carro de corrida nesse mundão afora.

CC – O que você mais aconselha a seu filho?

DF – Que seja profissional e que faça coisas para se destacar. Ele começou na Stock Junior largando na primeira fila na primeira prova da vida, e fazendo a pole-position na segunda corrida. Depois notei que ele caiu na mesmisse de muitos pilotos. Conversamos e falei isso a ele, se for pra ser mais um, não continue. Aí ele foi pra Curitiba, deu um pau nos caras, que por sinal tinham muito, mas muito mais experiência que ele, que estão procurando por ele até agora. E de lá pra cá, parece que tem algo a mais, mas o tempo vai dizer a verdade. Meu conselho é esse, ser profissional e fazer algo diferente, arriscar.

CC  – Alguma vez você teve medo em competir ou essa palavra tem que ser retirada do vocabulário de um piloto?

DF– Não, nunca tive um pingo de medo. Em meu vocabulário essa palavra nunca existiu.

CC – Você se sente realizado como piloto? O que falta para você ter essa realização?

DF – Me sinto realizado sim. Acho que tenho uma bela história e fico feliz por estar respondendo a tudo isso, pois é muito difícil e é uma coisa que muitas vezes me irrita. Até por isso não gosto de dar entrevista seja em jornal, rádio ou televisão, porque muitos ‘profissionais’ de imprensa, principalmente os mais jovens, não conhecem história. Acho que tem que ser profissional naquilo que faz. Ler, pesquisar, conhecer do assunto, antes de entrevistar ou reportar. Tem meio de comunicação que coloca em um autódromo um repórter pra fazer uma matéria e o cara não sabe diferenciar a roda do pneu. Acho isso um desrespeito com a pessoa que está sendo entrevistada, como ao leitor, ouvinte ou telespectador.

CC – Depois de pilotar passa pela sua cabeça apenas comandar sua equipe?

DF – Tenho minha equipe a alguns anos, que vocês podem conhecer através do site www.dfmotorsport.com.br. Com meu filho correndo, não sei se quando parar continuo com esse projeto. Talvez mantenha a equipe, mas com pessoas competentes que possam manter o time nos padrões que idealizei, e que ainda não consegui alcançar!

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