Entrevista – Felipe Giaffone

14 de julho de 2009

Seu nome é de uma família tradicional no automobilismo brasileirio e já representou o Brasil na Fórmula Indy e hoje, além de se dedicar ao campeonato de Fórmula Truck, na qual é piloto da equipe Wolksvagem, Felipe Giafonne ainda encontra tempo para administrar um kartódromo e ser piloto de testes da Stock Car Brasil, que utiliza carros produzidos pela fábrica da família Giaffone. Na ponte aérea Brasil – Estados Unidos, o piloto encontrou tempo para conversar com o site. Acompanhe o resultado dessa entrevista exclusiva.

Carros e Corridas –  O fato do automobilismo está presente em sua vida desde sedo foi determinante para sua carreira?

Felipe Giaffone – Com certeza, sempre estive ao redor do meu pai nas pistas e isto acabou me influenciando muito para pegar gosto pelo automobilismo.

Carros e Corridas – Houve Pressão de seu pai (Zeca) ou do tio (Affonso)?

Felipe Giaffone – Nenhuma, meu pai nunca quis que eu fosse um piloto profissional (quando era pequeno) e falou que no máximo eu iria correr de Stock Car no Brasil que ele achava que não era tão perigoso. Só me falava que se fosse para correr era para fazer direito e levar a sério.

Carros e Corridas – Por conta disso (Família ligada ao automobilismo) houve maior cobrança por resultados?

Felipe Giaffone – No Brasil sentia alguma pressão e também algumas facilidades do conhecimento que meu pai tinha de equipes que me ajudou a estar em lugares bons pelo menos no Brasil.

Carros e Corridas – Seu pai e você são apaixonados por Kart, tanto é que construíram o kartódromo da Granja Viana. O Kart é a melhor escola para qualquer piloto?

Felipe Giaffone – O Kart é uma ótima escola para piloto, alem de ser um ótimo hobby pra quem curte velocidade, mas não quer ou pode ter um carro de corridas. O Kart ensina tudo para um piloto, que depois só precisa aprimorar e se adaptar conforme muda de categoria, mas o principio é o mesmo.

Carros e Corridas – Você começou no Kart aos 13 anos de idade. Hoje muitos pais “forçam a barra” para que os filhos andem o mais cedo possível no kart. Qual a sua opinião sobre esse tipo de conduta e qual é para você a idade ideal de se competir no Kart?

Felipe Giaffone – Acho que a maioria dos pais força muito os filhos a correrem de Kart, acredito que antes dos 10 anos as crianças tem que levar o Kart da mesma forma que jogam futebol na escola, por pura diversão, também acho que muitos pais querem proteger os filhos demais no Kart, brigam por resultados e cobram demais os filhos.

Carros e Corridas – Você, por conta da Fórmula Truck, tem andado por todo o Brasil e corrido na Região Nordeste. Este ano a Truck será a única categoria nacional a correr no autódromo da cidade do Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza (CE). O que falta para outras categorias reconhecerem o Nordeste como uma região capaz de figurar no calendário nacional? Valdeno Brito (Stock), Beto Monteiro (Truck), Riamburgo Ximenes (Rally) e outros são a prova de que é possível aproveitar talentos nordestinos.

Felipe Giaffone – pelo fato de ser muito distante, acaba inibindo os promotores e muitos pilotos falam que a pista não tem condições etc. O evento a ser realizado tem que ser bom para o promotor para que a categoria cresça, assim como acho que muitos pilotos estão errados em falar em não correr em pistas mais ondulas ou pequenas demais. É só lembrar que a F1 anda em Mônaco que é ondulada estreita perigosa e pequena, mas para o evento ela é muito importante.

Carros e Corridas – Em entrevista para o site, o piloto Djalma Fogaça, que corre com você na Truck, cobrou um maior incentivo à criação de categorias de base como a Fórmula Ford e a Fórmula Renault (a qual a empresa de seu pai forneceu chassis, salvo engano). Você também concorda com essa opinião?

Felipe Giaffone – Com certeza, acho que para o ano que vem vamos ter novas categorias de base. O grande problema dessas categorias é que, por ser categorias de base, os pilotos ficam um ou dois anos no máximo e vão para outras categorias (que é para isto que ela foi feita), mas para manter esta categoria sempre cheia, precisamos melhor o kartismo brasileiro, que nos últimos anos só tem diminuído.

Carros e Corridas – Saindo do Kart e das categorias de base e atravessando o Atlântico. Você entrou no automobilismo dos Estados Unidos (porque não Internacional) pela Indy Light e sofreu um forte acidente. Depois disso estreou na Indy (antiga Cart) e foi o “Rookie Of The Year” em 2001. Em 2005 saiu da Indy e veio para a Truck, mas em 2006 voltou para a Indy. Que aprendizado você tirou desses anos andando em circuitos ovais a mais de 300 km/h? (Na foto -carro 17 – ao lado de Tony Kanaan em Indianápolis)

Felipe Giaffone – Acho que tive uma carreira muito boa nos EUA, infelizmente, não consegui ganhar a quantidade de corridas que gostaria, tive momentos ótimos e outros horríveis. Hoje me sinto realizado de estar na F.Truck em uma equipe que me de condições de ganhar corridas, que foi o principal motivo de voltar para o Brasil e não ficar guiando em uma categoria famosa apenas para ser mais um no grid.

Carros e Corridas – Você trabalhou com o A.J.Foyt que é um ídolo nos Estados Unidos, mas ele tem a fama de centralizador. Esse tipo de problema foi um dos motivos que fez você largar a Indy?

Felipe Giaffone – Quando o A.J me chamou para correr em 2006, sabia que tinha uma grande chance de ser o meu ultimo ano, pois era uma equipe pequena e ele realmente era muito centralizador. De outra forma, foi a melhor coisa que fiz, pois voltei para o Brasil com a certeza que o meu ciclo na F.Indy tinha acabado. Eu sempre falei para mim mesmo que nunca ficaria na pista implorando por uma vaga pra ganhar dinheiro e chegar lá atrás; e foi o que aconteceu.

Carros e Corridas – O Hélio Castroneves ganhou, pela terceira vez as 500 Milhas de Indianápolis. Você já participou dessa corrida. Como é correr as 500 Milhas?

Felipe Giaffone – É uma corrida única, alem de ser uma pista muito difícil tem uma tradição enorme que mexe com qualquer piloto. Uma das minhas grandes decepções foi quando cheguei em terceiro em 2002 sabendo que tinha um carro para ganhar aquela corrida.

Carros e Corridas – O automobilismo norte americano, a Nascar principalmente, deve ser encarado como exemplo de organização competitiva ou há favorecimentos para alguns?

Felipe Giaffone – A Nascar pensa 100% no show, se para fazer um show melhor eles tiverem que ajudar ou prejudicar um piloto, equipe ou marca eles farão. Tem os dois lados da moeda, é ruim de um lado, mas com um show bonito a garantia de sucesso da categoria só aumenta.

Carros e Corridas – Hoje o Brasil tem três representantes na Indy Ligth, e uma dessas promessas é a Bia Figueiredo. Você acompanha o trabalho dela? Você Acha que ela tem potencial para crescer ainda mais?

Felipe Giaffone – Acompanho faz tempo, sempre andou muito bem de kart e de carro teve sucesso, mas com algumas batidas. Acho que é um grande potencial, mas para andar em oval tem que ter bastante calma, pois batidas custam muito caro para as equipes e pode prejudicar a carreira dos pilotos.

Carros e Corridas – Você pensou em Fórmula 1? O que distanciou você dessa categoria?

Felipe Giaffone – Em 1995 tinha um patrocínio pequeno que facilitou a minha ida para os EUA e com isto desisti da F.1. Meu sonho ser foi de ser um profissional do automobilismo, então nunca me apeguei muito por uma categoria. Mas nunca saberei se fiz um bom negócio de desistir da F1. Poderia ter chegado lá, como poderia ter volta com uma mão na frente e outra atrás depois de um ano. Pelo menos nos EUA fiquei por 10 anos.

Carros e Corridas – A Fórmula Truck é hoje uma das principais categorias do automobilismo brasileiro e cada vez mais vem ganhando em competitividade. Você se sente realizado em correr com um veículo de dimensões exageradas a velocidade elevadíssima? Qual é o sentimento de dominar um caminhão nas pistas?

Felipe Giaffone – A Truck é uma categoria muito diferente das outras do Brasil, não só pelo tamanho e peso, mas pelo desenvolvimento e envolvimento das fábricas. O caminhão tem uma forma de guiar bem diferente, mas o principio é o mesmo.

Carros e Corridas – A sua equipe Wolksvagem trava grande duelo com, a Mercedes, que tem o piloto campeão (Welington Cirino). Essa competitividade é um dos pontos fortes da categoria?

Felipe Giaffone – A briga das fabricas é o grande diferencial da truck. A Volks não mede esforços para ganhar dos concorrentes. Tem tudo a ver comigo.

Carros e Corridas – A corrida na Truck é bem mais complicada do que se imagina. “Guardar” o caminhão na primeira metade da corrida é a forma mais correta de se chegar ao final dela com condições de vitória?

Felipe Giaffone – Diferente da maioria das categorias, acho que a Truck deve ser igual aos F.1 antigos: tem que administrar o equipamento para acabar a corrida.

Carros e Corridas – Qual é o seu maior adversário na Truck hoje?

Felipe Giaffone – Acho que são vários pilotos e marcas de caminhão diferentes.

Carros e Corridas – Mesmo com o sucesso da Truck tem gente que torce o nariz e fala que é lugar para aposentados. O que você acha desse tipo de pensamento?

Felipe Giaffone – Não ligo pra isto, quando corria na F.Indy falavam que lá também era para pilotos aposentados da F1. Talvez seja o meu destino. O que importa é que estou me divertindo muito na F.Truck.

Perfil

Nascido em São Paulo, Felipe é da família Giaffone, o sobrenome que mais produziu piloto no automobilismo no Brasil. Começou no kart aos 13 anos com um terceiro lugar no Campeonato Brasileiro de 1998. De lá até os dias de hoje correu em varias categorias de kart e de automobilismo até chegar em 2001 na IRL nos Estados Unidos. Continuou na F-Indy em 2002, aonde chegou a vencer no GP de Kentucky e marcar um pódio com o terceiro lugar nas 500 Milhas de Indianápolis. Ficou no automobilismo norte-americano até 2006 chegando entre os cinco primeiros colocados por 14 vezes. Na Formula Truck, estreou em 2005, fazendo algumas provas como companheiro de Roberval Andrade com um F-Truck Scania. Marcou um 5º lugar logo na estréia em Goiânia, e foi 2º em Curitiba. Em 2007, pronto para fazer a temporada completa, conquistou o título pela RM Competições Volkswagen com três vitórias seguidas (São Paulo, Caruaru e Fortaleza). Fotos:Robério Lessa – Orlei Silva; Cláudio Reis; arquivo do piloto.

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