Entrevista – Luiz Facco

24 de agosto de 2009

O Carros e Corridas apresenta uma entrevista exclusiva com o paulista Luiz Facco conquistou em julho deste ano, ao lado do cearense Silvio Deusdará, o título de Campeão do Rally dos Sertões 2009 na categoria Super Production. A dupla da Equipe Acelera Siriema liderou sete das dez etapas e após cruzar mais de 5 mil km por sete estados chegou ao destino final em Natal/RN (largada foi em Goiânia/GO), com uma vantagem de cerca de 5h30 do segundo colocado.

Carros e Corridas –  Inicialmente gostaria de saber se o título desse ano no Rally dos Sertões foi mais difícil de ser conquistado do que o de 2007?
Luiz FaccoSem dúvida muito mais difícil, mas foram conquistas diferentes. O Rally dos Sertões é uma prova longa onde o desafio é muito maior e temos dez ralis diferentes todos os dias. Nossos limites são testados a cada momento. A adrenalina é constante, a concentração, não podemos perder o foco nunca e tivemos de manter a estratégia para assegurar a vantagem da liderança durante sete dos dez dias de prova. Com todas as dificuldades que enfrentamos conquistar este título foi gratificante demais e nunca nos esqueceremos desta vitória.

C C –  O que achou do roteiro da edição 2009?
LF – Como nos foi dito, 90% do roteiro foi inédito. Nestes cinco anos que participo da prova, sempre nos deparamos com especiais que nos surpreendem pelo nível de dificuldade, mas é isto que nos atrai para retornar todos os anos. O Sertões 2009 teve um roteiro muito bom, onde enfrentamos todos os tipos de terrenos nos sete estados que cruzamos.

C C – Quais foram as maiores dificuldades?
LF – Foi uma prova sensacional que exigiu muito do equipamento, piloto, navegador e equipe de apoio, com etapas difíceis e desgastantes. A segunda e sétima (de areia) especiais foram dias extremamente duros, posso afirmar que das mais difíceis na minha trajetória no rali. Como estávamos na vantagem da liderança, em mais da metade da prova, tivemos de administrar a ansiedade e o receio de algo dar errado também. Isto aumentou demais a pressão na prova, mas deu tudo certo até a última especial.

CC – Como foi que você viu a entrada de um concorrente tão forte como a Volkswagen no Rally dos Sertões?
LF – Desde o ano passado, a chegada de uma equipe como a VW mostrou que a projeção internacional do Sertões cresce a cada ano e isto enaltece a competição como um todo. Certamente o profissionalismo e os veículos que preparam estão muito a frente ainda das equipes brasileiras, mas isto é positivo pois aumenta a competitividade. Nós por exemplo, que terminamos em sétimo na Geral dos Carros ficamos muito satisfeitos, pois fomos a quarta melhor dupla brasileira classificada em 2009, considerando que haviam três touaregs na nossa frente, o resultado foi muito positivo.

CC – O Rally Dakar. Você já correu? Ou espera correr?
LF – Nunca participei de um Dakar, mas neste ano fui acompanhar a largada e primeiras etapas e conhecer algumas máquinas de perto. Me diga quem corre num Sertões, não tem o sonho de estar num Dakar? Ainda mais que está agora na América do Sul. Mas para que isto aconteça, o preparo do veículo, investimento, infraestrutura, tudo é em numa proporção muito maior, quem sabe um dia estaremos lá.

CC – Como é o preparo para um piloto de Rally. Por conta das dificuldades que uma prova desse tipo acarreta, além de pilotar e seguir a orientação do navegador é essencial o que mais?
LF – É fundamental ter um preparo físico para se ter resistência, porque somos muito exigidos durante as provas, principalmente no Sertões, onde o calor é excessivo e temos desconforto dentro do carro durante horas. Pratico Kung Fu há muitos anos. No começo praticava com uma visão de autodefesa, hoje pela filosofia, que mudou minha vida e me ajuda a manter a concentração e equilíbrio. Além disto, faço exercícios e treino em academia.

CC – Como  você entrou para esse do Rally? Você começou como no automobilismo? 
LF – Comecei no off-road pelas provas de Jeep, participando de Raids de regularidade e de trilhas. Daí para o rali foi um pequeno passo. Quando a Mitsubishi montou a Cup e começou a comercializar veículos de competição, decidimos participar. Apesar de tímido ainda, este feito nos abriu caminho para as provas de Cross Country. Em 2005, amigos nos convidaram a entrar em uma equipe do Brasileiro de Velocidade. A partir daí, começamos a aprender a participar dos Ralis de Velocidade e tomamos muito gosto pelo esporte.

CC – A Equipe Acelera Siriema foi criada em 2004. Você já projetava esse crescimento dentro do rally brasileiro?
LF – Quando resolvemos criar a equipe e competir de forma mais profissional nos campeonatos, já passamos a encarar o rali de uma forma diferente e nos empenhamos para conseguir bons resultados. Estamos muito felizes de ter conquistado algumas vitórias, desde então, que comprovam que nosso trabalho e dedicação estão no caminho certo. Entre nossos títulos mais expressivos: Campeões do Rally dos Sertões 2009 (Super Production), Vice-Campeões Rally dos Sertões 2008 (T2), Campeões RN1500 2008 (Production/T2), Campeões Brasileiros de Rally Cross Country 2007 (Production Diesel), Vice-Campeões Paulistas de Rally de Velocidade 2006 (N2).

CC – Quais os novos projetos da equipe e do piloto Luiz Facco?
LF – Vamos continuar disputando os campeonatos que estamos envolvidos e procurar cada vez mais aperfeiçoar a pilotagem, juntamente com a navegação e melhorar nosso desempenho. Neste ano por exemplo estamos com novidades na Copa Peugeot de Rally de Velocidade, pois mudamos de carro e categoria, estamos agora encarando o novo desafio do Peugeot 207.

CC – Você fez dupla com os navegadores Glauber Fontoura, depois com Walace Von Schmidt,  e hoje você navega com o Silvio Deusdará na Super Production e com Schmidt na velocidade. Como é lidar com dois navegadores diferentes? Eles (os navegadores) acabam determinando mais a estratégia da equipe?
LF – Desde o início quem navega para mim são meus amigos. Glauber e Walace são meus amigos de longa data dentro e fora dos grids e nosso entrosamento é muito bom, assim como a segurança e confiança que tenho neles enquanto piloto. O Silvio conheci este ano, quando substituiu o Walace em duas ocasiões durante o Velopiocerá e o RN1500, nos demos bem e acabamos fazendo o Sertões pela primeira vez juntos agora. Logicamente cada um tem seu estilo próprio, mas nos adaptamos bem a cada situação. Certamente a sintonia e entrosamento surgem com o tempo e todos os três têm boas qualidades que vem somar a estratégia da equipe.

CC – Qual o grande recado que você daria para quem deseja seguir na carreira automobilística?
LF – Tudo que é feito com dedicação e paixão vale a pena. Quem gosta de esporte a motor sabe que o investimento é alto, mas não há presente maior do que subir ao pódio. Sempre fui fã de automobilismo e velocidade e corro por hobby porque tenho outras prioridades e meu trabalho exige muito. Na maioria das vezes só entro no carro na hora da prova. Gostaria muito de ter tempo para treinar e poder fazer os ajustes do carro dias antes dos ralis, mas nunca consigo. Se você gosta disto, vá em frente, mas precisar levar muito a sério para prosperar. Comece fazendo campeonatos regionais, os monomarcas são uma ótima opção também e dão bastante experiência para as demais provas.

Fotos:José Mário Dias/Dfotos; Donizetti Castilho/Dfotos; Sanderson Pereira; Fabio Davini/Dfotos; Caetano Barreira/Webventure; Marcelo Maragni/Webventure/Divulgação.
 

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