Nelsinho revela ter batido a mando de Briatore

11 de setembro de 2009

A Fórmula Um teve hoje (10) um dia bastante tumultuado. O responsável por toda agitação na categoria foi o brasileiro Nelsinho Piquet, que através de carta enviada à Federação Internacional de Automobilismo (FIA), revelou seu envolvimento no acidente ocorrido no  GP de Cingapura de F-1, realizado em 28 de setembro de 2008.

O piloto afirma ter sido “convidado” por Flavio Briatore, diretor da equipe ING Renault F-1 Team, e por Pat Symonds, diretor técnico da equipe, a provovar uma batida de seu carro no muro, de forma deliberada.

Confira na íntegra a carta de Nelsinho entregue à FIA em Paris, no dia 30 de julho deste ano.

 

Nesta quinta-feira,a imprensa européia divulgou uma carta que supostamente teria sido enviada a FIA por Nelsinho Piquet. No documento o brasileiro explica algumas questões relacionadas ao caso.

Nelsinho nega que tenha recebido a promessa de renovação de contrato para o ano que vem e afirma que aceitou bater no GP de Cingapura por acreditar que “ficaria em uma melhor posição dentro da equipe”

Confira a suposta carta na íntegra:

Eu, Nelson Ângelo Piquet, nascido em 25 de julho de 1985, em Heidelberg, na Alemanha… direi o seguinte:

1. Salvo prova em contrário, os fatos e declarações contidas neste depoimento são baseadas em fatos e assuntos de meu conhecimento. Creio que tais fatos e declarações contidos neste depoimento são verdadeiros e corretos. Sempre que quaisquer fatos ou declarações não estiverem dentro de meu próprio conhecimento, eles serão verdadeiros ao melhor de meu conhecimento e crença e, se este for o caso, indico a fonte deste conhecimento e desta crença.

2. Faço esta declaração voluntariamente para a FIA, a fim de permitir que a FIA exerça suas funções de supervisão e regulamentação no que diz respeito ao Campeonato Mundial de F-1.

3. Estou ciente de que existe um acordo entre todos os participantes do Campeonato Mundial de F-1 e todos os titulares tem sua Super Licença para assegurar a justiça e a legitimidade do campeonato, e estou ciente de quais graves consequências podem se seguir caso eu forneça a FIA qualquer informação falsa ou enganosa.

4. Entendo que a minha declaração completa foi gravada em fita de áudio e que uma transcrição completa da minha gravação de áudio será disponibilizada para mim e para a FIA. O presente documento constitui um resumo dos principais pontos abordados durante minha declaração verbal.

5. Gostaria de trazer os seguintes fatos ao conhecimento da FIA.

6. Durante o GP de Cingapura de F-1, realizado em 28 de setembro de 2008 e válido pelo Campeonato Mundial de F-1 de 2008, fui convidado pelo Sr. Flavio Briatore, que é tanto meu manager quanto diretor da equipe ING Renault F-1 Team, e pelo Sr. Pat Symonds, diretor técnico da mesma equipe, a bater deliberadamente meu carro, a fim de influenciar positivamente o desempenho do ING Renault F-1 Team no evento em questão. Concordei com esta proposta e conduzi meu carro para acertar o muro, provocando um acidente entre as voltas 13 e 14 da corrida.

7. A proposta de provocar deliberadamente um acidente me foi feita pouco antes da corrida, quando fui convocado pelo Sr. Briatore e pelo Sr. Symonds no escritório do Sr. Briatore. O Sr. Symonds, na presença do Sr. Briatore, me perguntou se eu estaria disposto a sacrificar minha corrida pela equipe por um `carro de segurança´. Todo piloto de F-1 sabe que o safety car entra na pista quando há um acidente que a bloqueia ou joga detritos, ou quando há um carro parado onde é difícil resgatá-lo, como foi o caso, aqui.

8. No momento desta conversa, eu estava em um estado mental e emocional muito frágil. Este estado de espírito foi provocado pelo estresse intenso devido ao fato de que o Sr. Briatore se recusou a informar-me da existência ou não da renovação de meu contrato de piloto para o próximo ano (2009), como habitualmente ocorre no meio da temporada (por volta de julho ou agosto). Em vez disso, o Sr. Briatore repetidamente pediu-me para assinar uma opção, o que significava que eu não estava autorizado a negociar com outras equipes no mesmo período. Ele repetidamente me colocou sob pressão para prolongar a opção que eu tinha assinado, e iria me chamar regularmente em seu escritório para discutir esta renovação, mesmo em dia de corrida um momento que deveria ser apenas para concentração e relaxamento antes da prova. Este esforço foi acentuado pelo fato de que, durante o GP de Cingapura, eu tinha me classificado em 16 no grid, então eu estava muito inseguro sobre o meu futuro na equipe Renault. Quando me pediram para bater o carro e provocar a entrada do safety car a fim de ajudar a equipe, eu aceitei porque esperava que pudesse melhorar minha posição dentro da equipe neste momento crítico da temporada. Em nenhum momento fui informado por qualquer pessoa que, ao concordar em provocar um incidente, eu teria garantido a renovação de meu contrato ou qualquer outra vantagem. No entanto, no contexto, pensei que seria útil para alcançar este objetivo. Por isso, concordei em provocar o incidente.

9. Após a reunião com o Sr. Briatore e o Sr. Symonds, o Sr. Symonds me puxou para um canto tranquilo e, usando um mapa, apontou-me para a curva exata da pista onde eu deveria bater. Esta curva foi escolhida porque aquele local específico da pista não possui guindastes que permitiriam que um carro danificado pudesse ser rapidamente removido da pista, nem possui entradas laterais, o que permitiria que um fiscal de pista pudesse empurrar rapidamente o carro para fora dela. Assim, considerou-se que um acidente nesta posição específica seria quase certo de provocar uma obstrução da pista e que, portanto, seria necessária a implantação do safety car a fim de permitir que a pista fosse limpa e para assegurar a continuidade da corrida.

10. O Sr. Symonds também me disse em que volta, exatamente, eu deveria provocar o incidente, de modo a poder disponibilizar ao meu companheiro de equipe, o Sr. Fernando Alonso, uma boa estratégia, já que ele faria seu reabastecimento pouco antes da entrada do safety car, durante a 12 volta. A chave para esta estratégia reside no fato de que o conhecimento de que o carro de segurança entraria na pista entre as voltas 13 e 14 permitiu que a equipe fizesse no carro do Sr. Alonso uma estratégia agressiva de combustível, suficiente para chegar a 12 voltas, mas não muito mais. Isso permitiria que o Sr. Alonso ultrapassasse o máximo de carros possível, sabendo que os carros teriam dificuldade em recuperar o tempo perdido depois do pit stop devido à implantação posterior do safety car. Esta estratégia foi bem sucedida e o Sr. Alonso venceu o GP de Cingapura de F-1 de 2008.

11. Durante estas discussões, não foi feita qualquer menção de quaisquer preocupações no que diz respeito à segurança desta estratégia, quer para mim, para os espectadores ou para os outros pilotos. O único comentário feito neste contexto foi realizado pelo Sr. Pat Symonds, que me alertou para ter cuidado, dizendo que eu não deveria me ferir.

12. Eu, intencionalmente, causei o acidente, deixando o carro sair lateralmente pouco antes da curva. A fim de me certificar que eu provocaria o acidente durante a volta certa, perguntei para a minha equipe por diversas vezes, através do rádio, para confirmar o número da volta, algo que eu não faria normalmente. Não fiquei ferido durante o acidente, nem ninguém.

13. Após as discussões com o Sr. Briatore e o Sr. Symonds, citados acima, a estratégia do acidente nunca foi discutida novamente com qualquer um deles. O Sr. Briatore discretamente disse obrigado após o final da corrida, sem falar mais nada. Não sei se alguém tinha conhecimento desta estratégia no início da corrida.

14. Após a corrida, informei ao Sr. Felipe Vargas, um amigo e conselheiro da família, o fato de que o acidente tinha sido deliberado. O Sr. Vargas ainda informou meu pai, o Sr. Nelson Piquet, algum tempo depois.

15. Depois da corrida, vários jornalistas fizeram perguntas sobre o acidente e me questionaram se eu havia feito de propósito, porque sentiram que eu era suspeito.

16. Na minha própria equipe, o engenheiro do meu carro questionou a natureza do incidente, porque ele achou incomum, e eu respondi que eu tinha perdido o controle do carro. Eu acredito que um engenheiro inteligente notaria que os dados de telemetria do carro indicam que o acidente foi causado de propósito, já que continuei acelerando, enquanto que o normal seria frear o mais rapidamente possível.

Declaração de Verdade

Eu acredito e juro que os fatos citados nesta declaração são verdadeiros.

A afirmação foi feita na sede da FIA em Paris, em 30 de julho de 2009, na presença do Sr. Alan Donnelly (Presidente dos comissários da FIA), Martin Smith e Sr. Jacob Marsh (Investigadores da empresa Quest, mantidos pela FIA para ajudar na investigação). As notas foram tomadas pela Sra. Dondnique Costesec (Sidley Austin LLP).

Foto:Renault.