Coluna Paulo Valiengo: Concentração deve ser o fator primordial na carreira de um piloto profissional

16 de novembro de 2009

Acompanhe mais uma coluna escrita por Paulo Valiengo.

Concentração deve ser o fator primordial na carreira de um piloto profissional

Olá, moçada!

Sempre falamos ou ouvimos falar do acerto e da preparação do carro de corrida. Todos os pilotos, na Stock Car e em outras categorias, lutam o tempo inteiro para ter um carro bem acertado e que permita uma boa performance. Mas existem fatores adicionais, que podem decidir uma boa colocação no grid de largada, ou até mesmo o resultado de uma corrida, bem como evitar uma tragédia na pista.

O poder de concentração do piloto é quase tão importante quanto à qualidade do seu equipamento e a sua própria habilidade. No automobilismo, diferentemente de outros esportes, qualquer vacilada pode ter conseqüências muito graves, para o piloto ou para os outros concorrentes.

Lembro-me muito bem do que aconteceu quando fiz minha segunda corrida pela categoria, no Autódromo de Interlagos, a bordo de um Opala 4 100 de 6 cilindros, o precursor do Stock Car, na temporada de 1978. Como terminei a corrida de estréia no Rio de Janeiro na 15ª colocação, mesmo largando em 32º, fiquei tão cheio de moral, que convidei minha família para assistir a prova de São Paulo.

No primeiro treino já tive um grande contratempo. Quando estava saindo do box para a classificação, um mecânico estava debruçado sobre o motor do carro de sua equipe, quando a mangueira do radiador estourou e a água fervendo jorrou em cima dele, que saltou para traz e “atropelou” meu carro. Parei todo assustado para ver o que tinha acontecido, mas fui severamente repreendido pelo meu amigo e professor, Alfredo Guaraná Menezes, que me mandou seguir em frente.

O Guaraná já era um campeão consagrado, um dos raros pilotos profissionais do automobilismo brasileiro na época, e estava pacientemente me assessorando na pista. Por ser completamente inexperiente, fiquei muito abalado com o ocorrido, perdi a concentração e não consegui um bom tempo na classificação. Fiquei bastante chateado com o acidente.

O mecânico teve o seu tornozelo quebrado quando passei com a roda por cima do seu pé. O Guaraná depois me explicou que eu não deveria ter parado, pois estava saindo para a classificação e deveria estar completamente concentrado em virar um bom tempo. Confesso que naquele dia achei o Guaraná uma pessoa sem coração.

No dia seguinte, repeti a dose. No grid depois da volta de apresentação, vi o meu pai e quase toda minha família me acenando do lado de fora da cerca e acenei de volta no momento exato em que a largada foi dada. O resultado é óbvio: fui ultrapassado por todos os lados pelos carros que estavam atrás. Fiz uma péssima corrida e não marquei nenhum ponto no campeonato.

Depois da prova, com a cabeça mais fria, concluí que o Guaraná tinha toda razão. Um piloto nunca deve perder a concentração. Na pista, pode ser condição de sobrevivência!

Portanto, tão importante quanto o árduo trabalho de acerto do carro, são os trabalhos físicos e mentais que o piloto precisa fazer para guiar bem durante um fim de semana de corrida. Está provado que o condicionamento físico ajuda e muito na capacidade de se concentrar. Todos nós nos lembramos, do esforço que o inigualável Ayrton Senna teve que fazer para melhorar sua forma física.

Ele que era um superdotado, guiava como ninguém, mas precisou reforçar inteiramente a sua musculatura para conseguir guiar uma corrida inteira no limite. No automobilismo é assim mesmo: o tempo inteiro com o pé em baixo. Guiar no limite consome muita energia, e o piloto precisa estar rigorosamente em forma. A concentração absoluta pode garantir um décimo de segundo a menos na classificação, o que equivale a muitas posições num grid de largada.

Por outro lado, já presenciamos acidentes de grandes proporções no automobilismo, e na própria Stock Car, que talvez pudessem ser evitados se os pilotos estivessem plenamente concentrados. A capacidade de concentração tem que estar no seu fator máximo, uma vez que os carros estão cada vez mais rápidos e potentes, ultrapassando o limite de resistência do piloto.

Num grid repleto como o da Stock Car, tudo pode acontecer desde o momento da largada, até a bandeirada final, e os sentidos precisam estar em total estado de alerta para driblar os imprevistos e conseguir um lugar no pódio.

Dessa forma, fica claro que aquele automobilismo “old fashioned”, em que o piloto era um playboy que curtia baladas noturnas, tomava umas e outras, e no dia seguinte ia para pista correr, morreu nos anos 70! É isso aí.

Até a próxima.

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*A coluna publicada neste site expressa a opinião de seu autor
Fotos:Fernanda Freixosa/Divulgação.