Entrevista – Nonô Figueiredo

15 de setembro de 2010

Flávio Pagano De Figueiredo ou Nonô Figueiredo, paulista, nascido no dia 13 de maio de 1971, filho de um dos maiores nomes do kart nacional, Carol Figueiredo, foi entrevistado pelo jornalista Robério Lessa. Na conversa, Nonô fala sobre os tempos de kart, sua experiência fora do país, da Stock Car e do automobilismo brasileiro. Nonô, que hoje é piloto da equipe Cosan Mobil da Stock Car garantiu sua presença na super final da categoria e disputa, neste domingo (19), o GP de Campo Grande da Stock Car. Entre os títulos conquistados estão os campeonatos brasileiro e paulista de kart,  o bi-campeonato brasileiro de Fórmula Fiat e o título da Stock Car Light, em 1994. Nonô também foi vice campeão das 1000 milhas brasileiras e participou de campeonatos na Europa e nos estados Unidos.

Confira essa entrevista exclusiva com Nonô Figueiredo, que iniciu sua vida dentro das pistas em 1984, no kart, conquistando sua primeira vitória em 1985, ano em que foi vice-campeão paulista de kart. Em 1986 tornou-se campeão brasileiro de Kart. E em 1987 sagrou-se campeão paulista de Kart. Participou de 14 corridas no campeonato Norte Americano de Fórmula Ford, conquistando oito vitórias, quatro segundos lugares e 8 voltas mais rápidas. em 1992 foi campeão Brasileiro de Fórmula Uno com três vitórias no ano em que foi considerado o piloto revelação pela revista Auto Esporte. Em 1993 foi para a Itália onde foi eleito o melhor estreante do campeonato Italiano de Fórmula 3 e selecionado para participar do Marlboro Masters da categoria, realizado em Zandvoort na Holanda.

De volta ao Brasil foi campeão crasileiro de Stock Car Light (foto) , em 1994 com cinco vitórias na temporada. Em 1995 conquistou o bi-campeonato brasileiro de Fórmula Fiat com três vitórias na temporada. Em 1997 participou do campeonato Inglês de Vectra Challenge, venceu quatro etapas e ficou na quarta colocação na classificação final. Em 1997  foi quarto colocado no campeonato sul-americano de Superturismo, sendo o primeiro Brasileiro a vencer nessa categoria. Em voltou a disputar o Vectra Challenge, na inglaterra e conquistou o vice-campeonato. Em 1998 foi o primeiro piloto brasileiro a competir no British Touring Car Championship. Em 1999 participou do campeonato sul-americano de Superturismo e, desde 2000  está na Stock Car V8. Além de disputar a Stock, Nonô disputou as 1000 milhas Brasileiras em 2004, 2005, 2006, 2007 e 2008 sendo vice-campeão nos dois primeiros anos à bordo de um Porsche GT3.

Carros e Corridas – Você vem de uma família que tem muita ligação com o automobilismo. Seu pai (Carol Figueiredo) é um dos mais respeitados pilotos de kart do país. A sua paixão pelo automobilismo foi incentivada por seu pai ou seu interesse transcorreu naturalmente?

Nonô Figueiredo – Com certeza iniciou-se pela paixão do meu Pai que correu com muito sucesso de kart e carro, porém, se também não fosse todo o meu interesse e paixão pelo esporte talvez eu já não estivesse nele há 25 anos, tem que gostar muito.

C & C – No kart você conquistou vários títulos, como os de campeão paulista e brasileiro. Que recordação você traz de sua passagem pelo kart? Qual foi o momento mais marcante?

Nonô – O kart é sem duvida a melhor escola de todas. Em toda a minha carreira do Kart disputei provas com pilotos muito bons, o Rubinho, Christian, Max Wilson, Tony Kanaan, Helinho (Hélio Castroneves) e vários outros, sem dúvida todos aprenderam e cresceram no meio de muita gente boa e isso reflete no resto da carreira de cada um. O momento mais marcante de minha trajetória, com certeza, foi quando conquistei o título de Campeão Brasileiro em 1986. Meu motor quebrou na classificação. Após ter largado em último da repescagem, ganhei aquela corrida e me sagrei campeão.

C & C – Muitos têm criticado o kart por estar se tornando pouco acessível, inviabilizando a entrada de futuros campeões nessa categoria que representa o primeiro passo para quem quer entrar nesse universo. Você defende a criação e manutenção de campeonatos de menor custo? Até que ponto a CBA deveria entrar mais incisivamente no comando e realização de uma categoria que tivesse custos limitados?

Nonô – Sem dúvida o kart tem que ser tratado com muito mais carinho em todos os aspectos, se isso não acontecer não honraremos a tradição de fornecer excelentes pilotos para a F1 e demais categorias internacionais e nacionais.

C & C – Você também participou de provas no Sul-americano e Mundial de kart. Quando você enfrentou oponentes de outros países havia mesmo equilíbrio entre o kart praticado em nosso país com outras praças? Em que ponto levamos vantagem? E desvantagem?

Nonô – Existem pilotos bons em todo o mundo, a política pesa muito na hora de disputar categorias internacionais, não adianta achar que somente por se considerar um bom piloto irá conseguir o melhor equipamento, tem que trabalhar muito nos bastidores para que isso aconteça e nem sempre o piloto brasileiro faz isso direito.

C & C – Fora do Brasil você atuou na F-Ford norte-americana, na F-3 italiana, foi campeão Sul americano de Superturismo, vice-campeão do Vectra Challenge inglês e o primeiro brasileiro a competir no Campeonato Inglês de Turismo (BTCC). A opção por voltar a competir no país foi pela falta de oportunidade e patrocínio para poder investir em uma carreira internacional que compensasse o esforço? A escolha pelo Brasil acabou sendo mais acertada de que arriscar em equipes pouco estruturadas pela Europa?

Nonô – Na verdade o piloto fica à mercê de conseguir estar na hora certa no lugar certo e aproveitar as poucas oportunidades que aparecem. O meu objetivo sempre foi de ser um profissional de automobilismo. Na Europa, fiz dois anos em categorias de Turismo e venci oito corridas nos principais circuitos da Inglaterra. Aproveitei a oportunidade, estava no lugar certo mas na hora errada, aí outras oportunidades apareceram e acabei indo para o Superturismo Sul-americano e depois de volta a Stock Car (2000) onde estou até hoje e não me arrependo nenhum pouco.

C & C – Você disputou corridas nos Estados Unidos e Europa. Com a experiência em outros países, o que falta ainda para o automobilismo brasileiro se equiparar a esses?

Nonô – Termos uma política de construções de novos autódromos e também de reformas nos atuais, tentar levar o automobilismo para estados importantes e que nunca viram uma corrida de carro, o resto temos tudo, pilotos bons, equipes, um mercado de automóveis muito grande.

C & C – Você acha que no Brasil as pessoas não valorizam (respeitam) seus pilotos como na Europa ou nos Estados Unidos?

Nonô – Já foi bem pior. Hoje em dia com o sucesso da Stock Car e da F-Truck estamos conseguindo demonstrar o que é ser profissional e com isso vem o respeito pela profissão.

C & C – Algumas pessoas pensam apenas ser possível o sucesso no automobilismo a partir de uma carreira internacional, mas hoje o Brasil tem duas grandes categorias (Truck e Stock Car) que reúnem pilotos do mais alto nível. É possível viver apenas como piloto no Brasil?

Nonô – O automobilismo profissional (fora a F-1), no mundo, mudou muito. Essas categorias do Brasil podem ser comparadas aos melhores do mundo: público, imprensa, patrocinadores, pilotos e equipes. Temos uma tendência a valorizar mais o que vem de fora do que o que temos aqui, mas no caso do automobilismo podemos e devemos melhorar muito; novos autódromos, maior participação da CBA no processo todo, mas estamos em um nível muito bom.

CC – Você foi campeão pela Stock Light e conquistou o vice-campeonato nas 1000 Milhas Brasileiras. Como é ser competitivo em uma competição com corridas mais longas, bem diferente das corridas as quais você habitualmente disputa?

Nonô – corridas longas são muito interessantes, existe uma participação e envolvimento da equipe na corrida em si, fundamental para o sucesso final; trabalhar com outros pilotos lado a lado, tudo isso, o trabalho em equipe e todos os desafios disso me agradam bastante.

CC – Seu desempenho em campeonatos de turismo ajudou a quebrar uma “certa resistência” dos brasileiros quanto à competição nessa categoria, já que, por conta da grande exposição da mídia, os fórmula são vistos com maior atenção?

Nonô – É natural que todos busquem inicialmente a F1, a maioria vem do kart com esse sonho, comigo não foi diferente, porém cedo em minha carreira me dediquei a carros de Turismo, correndo nos EUA, América do Sul, e Europa e sempre acreditei que conseguiria me profissionalizar e ter sucesso nessas categorias.

C & C – Hoje você está em uma grande equipe na Stock e tem conseguido bom rendimento. Como é administrar a pressão por resultados, tendo um campeonato que é decidido em quatro etapas finais entre os 10 mais bem colocados?

Nonô – A pressão é apenas mais um ingrediente que o piloto tem que lidar, ela sempre existirá, andando bem ou mal. O piloto depende de uma equipe e é importante que essa equipe tenha a capacidade de dividir essa pressão com o piloto e não como acontece em muitas equipes no mundo que se escondem e acabam sempre jogando a responsabilidade para o piloto.

CC – Você disputou, recentemente, o GP Bahia Stock Car e pôde confirmar o interesse pelo esporte motor dos nordestinos. Você não acha que outras categorias deveriam fazer o mesmo caminho da F-Truck e da Stock Car?

Nonô – Sem dúvida, não só com o Nordeste, mas com outros estados.

CC – No Ceará cinco categorias disputam campeonatos (CTM, Superturismo, Fórmula V1.8, Marcas, e motociclismo) sem nenhum apoio de montadoras, sendo três dessas com carros projetados e produzidos em solo cearense. O custo médio desses carros varia de R$ 35.000,00 a R$ 40.000,00 e o gasto por corrida em torno de R$ 2.000,00, a R$ 3.000,00 por piloto a cada corrida. Seria esse o exemplo a ser seguido no Brasil e a ser defendido pela Confederação Brasileira de Automobilismo – CBA para servir como uma nova porta de formação de pilotos? Lembrando que o Kart é hoje muito mais caro para um piloto. A Superturismo tem grid com 25 a 30 carros por corrida.

Nonô – Categorias baratas são sim uma porta de entrada, mas não é somente isso, é preciso de um planejamento e comprometimento com o automobilismo regional e nacional. Isso virá com uma CBA mais atuante e conseqüentemente as FAUS mais atuantes também.

CC – Que dicas você daria para aquele que quer iniciar uma carreira no automobilismo?

Nonô – Comece a freqüentar as pistas, conhecer as pessoas e categorias e saber que é um esporte muito caro.

CC – O que podemos esperar do Nonô Figueiredo nas próximas etapas da Stock?

Nonô – O que sempre fiz, lutar para conseguir o melhor resultado e trabalhar com meus patrocinadores.

CC – Está faltando uma vitória este ano para coroar seu bom desempenho na Stock?

Nonô – Com certeza, porém isso acontecerá naturalmente se eu continuar andando no pelotão da frente.

Fotos: Eduardo Petron/Luca Bassani/ Duda Bairros/Fernanda Freixosa/Vicar/Arquivo pessoal do piloto.

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