Uma soma de fatores

7 de dezembro de 2010

Em sua coluna, o jornalista Robério Lessa escreve sobre a tragédia no automobilismo brasileiro no dia 28 de novembro, que acarretou na morte do piloto Daniel Maia, durante a disputa da última etapa do Campeonato Cearense de Fórmula V 1.8.

Uma soma de fatores

Após qualquer tragédia é comum haver um número exagerado de opiniões em torno das suas causas.

No automobilismo isso não é diferente e as coisas devem ser vistas à luz do conhecimento e de posse de instrumentos que permitam uma análise criteriosa.

Pode ser duro, mas um fato precisa ser dito. Aparentemente, o piloto Daniel Maia passou do limite após sair da Curva Dirce e entrar na reta dos boxes. O carro número 20 precisa usar os dois metros de zebra (ou lavadeira) além da pista e esses dois metros não são suficientes para segurar a “puxada” que dá para a lateral direita ao tracionar diante à pisada no acelerador.

Com o fim da zebra a roda traseira direita toca na brita com areia e aí tem início a rodada de 180 graus sobre o eixo traseiro, arremessando o bólido ao encontro dos pneus que resguardavam a mureta dos boxes (acompanhem o vídeo com imagens do cinegrafista Ralph Júnior do programa O Mundo Motor, da TVC-Ceará).

Um detalhe, alertado por quem estava em frente a área do acidente, é que o bico do carro desloca parte dos pneus  de proteção,  expondo uma maior área do muro de concreto para o impacto direto na lateral.

A violência do choque, associado à abrupta desaceleração (o maior temor dos pilotos em caso de acidente) foram dois agravantes para o infeliz desfecho no acidente de Daniel. Nem mesmo a robustez da célula de sobrevivência, fruto de um projeto seguro, foi suficiente para minimizar o  impacto sofrido pelo piloto.

Recordo-me de outro acidente na categoria onde  houve um choque  com o piloto Silvio Camelo, em 2009, quando bateu de frente com o muro de proteção  e o mesmo saiu sem nenhum ferimento de maior gravidade.

É fácil querer culpar a segurança da pista, que é homologada pela Confederação Brasileira de Automobilismo, quando um acidente acontece.

Mas porque os pilotos ainda corriam nesta pista?

Talvez a resposta, e aí eu não tenho procuração alguma para falar em nome de nenhum dirigente ou responsável pela segurança da pista no autódromo Virgílio Távora, se dê por conta da segurança que havia e há para a realização de corridas de automóveis.

O circuito do Eusébio já presenciou corridas de Espron; Fórmula Ford; Fórmula 3; Pick-Up Racing e Fórmula Truck e, após mais de 30 anos registra outro óbito por conta de acidente no seu traçado.

Minimizar a razão entre risco e velocidade é tarefa que deve ser levada à exaustão de todos os envolvidos nas corridas.

Ao piloto cabe se cercar de equipamentos comprovadamente eficazes como o Hans (proteção para o pescoço, acoplada ao capacete para evitar traumas na coluna cervical e pescoço); balaclava, luvas, sapatilha e macacões anti-chamas;  cinto de quatro pontos; e capacete adequado ao tamanho da cabeça e, talvez o mais importante, conhecer os limites de seu carro.

Aos dirigentes cabe o constante treinamento de sua equipe; a vigilante manutenção da estrutura física da pista;  a exigência de equipamentos de segurança por parte dos participantes da prova dentro e fora da pista (aí inclui os que trabalham no pit-lane, boxes, áreas de tráfego, parque fechado e depósitos de materiais e combustíveis); e, neste caso válido, o excesso de zelo na montagem das barreiras de pneus.

A Fórmula Um evoluiu ao longo dos anos e, principalmente após as tragédias, como a que nos tirou Ayrton Senna, houve avanço na preservação da vida.

Correr em uma pista devidamente preparada para isso, aliado ao uso dos equipamentos de segurança  é, foi e sempre será mais seguro que a aventura de celerados armados de volante e muito álcool na cabeça nas nossas ruas e estradas.

Não precisamos de outros casos como o de Daniel Maia para nos determos ao tema, tampouco precisamos ver nas manchetes dos jornais mais casos de morte em um trânsito cada vez mais estúpido.

Corrida de carro só pode ser em um lugar: no autódromo, mesmo com seus riscos é o lugar mais seguro para o homem extravasar seu instinto de competição.

Daniel fazia o que gostava. Em 2008 entrou para a Fórmula V1.8 e foi aclamado piloto revelação. Em 2009 chegou a disputar o título e após problemas no início do ano, encontrara no início deste ano, venceu a terceira etapa e buscava encerrar o ano com mais uma vitória e a conquista do vice-campeonato. A brutal abreviação da carreira desse piloto de  38 anos de idade, nos priva da convivência de uma pessoa que mostrava ser possível associar  gentileza e camaradagem  em um meio tão competitivo quanto é o mundo das corridas de automoveis. Daniel corre agora em pistas onde as curvas serão acompanhadas em nossos sonhos, em nossas boas lembranças de alguém que soube fazer bem uma das coisas que mais lhe dava prazer. (RL).

Por Hoje Fico aqui. Até Breve.

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Fotos: Robério Lessa/Imagens Reprodução Video Ralph Júnior.