Luiz Pereira Bueno – Uma justa homenagem

8 de fevereiro de 2011

Luizinho, um mito dos anos dourados, na estrada do céu com muita luz.

Por: Raul Machado Carvalho.

Sim, o Brasil também teve seus anos dourados no automobilismo de competição, nas décadas de 60 e 70. Corridas de longa duração,  experiência em carros de Fórmula, até mesmo um Fórmula 1, marcaram a vida de Luiz Pereira Bueno, 74 anos, que sempre levantou Interlagos, seu principal palco. Luizinho nos deixou em 8 de fevereiro.

Os anos 60, de rebeldia, contestação, repressão política, da visita do homem à Lua, do rock and roll, liberdade sexual, quando também era possível acampar no meio da pista de Interlagos e ver de perto os faróis deslizando numa noite de Mil Milhas, também levantou o automobilismo nacional com equipes estruturadas, boas corridas e a paixão do brasileiro por esse esporte que culminaria no primeiro título mundial de Fórmula 1, com Emerson Fittipaldi.

Todos eram amigos: Luizinho, Bird Clemente, Wilsinho, Jan Balder, Carol Figueiredo, José Carlos Pace, Ricardo Achcar, Emerson, Terra Smith, Breno Fornari, Catarino Andreata, Nilson Clemente, Clóvis de Moraes, Norman, Bob Sharp, Tite Catapani, Lian Duarte, Christian e muitos outros. Mas, na hora da bandeirada, asfalto quente, rotação no limite, eram feras e o sangue de piloto falava mais alto.

SAUDADES

Jovens tardes de domingos, tantas alegrias, velhos tempos, belos dias, dizia o Rei. O palco não podia ser outro senão os velhos 7.964 metros de Interlagos em dias festivos de sonhos, curvas, emoções e cores. Quem não se lembra da equipe Willys ou Hollywood com a qual Luizinho ganhou quase tudo?.

O jornalista Marco Antonio Lellis, amigo e assessor que com Luizinho conviveu muitos anos fala sobre o “mestre”: O paulistano, do bairro de Higienópolis, Luiz Pereira Bueno, o Peroba, nasceu em 16 de janeiro de 1937 e começou no automobilismo nos anos 50 e se tornou  um dos grandes pilotos da década de 60 e início de 70, com Gordini, Alpine, Willys e Porsche. Também correu pela equipe Ford Willys, Maverick/Hollywood, até se aventurar na Europa.

Luizinho fez um livro de memórias, patrocinado pela Mahle-Metal Leve, e seus amigos vendiam exemplares para ajudá-lo a enfrentar a doença que o afastou de tudo. O livro conta sua brilhante carreira de piloto, hoje, porém, quase um desconhecido. Afinal, quando alinhou um March para o GP do Brasil de F-1, prova extra-campeonato para homologação do autódromo de Interlagos em 1972, Felipe Massa,  nem havia nascido.

Do tempo em que levantava as arquibancadas de Interlagos, preservou a maneira calma e pausada de falar. Profundo conhecedor de mecânica, teve seus primeiros contatos com um carro de competição por volta dos 14 anos de idade, influenciado pelo irmão mais velho, que enxergava nas corridas apenas um hobby.

O Peroba, como era chamado, correu boa parte da sua carreira como piloto contratado da equipe Willys, referência entre os corredores. E já em sua época conquistou um diferencial raro até mesmo entre os pilotos atuais: viver apenas do que ganhava nas corridas.

A seu lado, dividindo o boxe, competiam destaques como Bird Clemente e José Carlos Pace. Em meados dos anos 60, a coqueluche era a rivalidade entre os carros “amarelinhos” da Willys e os Karmann-Ghia / Porsche da equipe Dacon, pilotados pelos irmãos Emerson e Wilsinho Fittipaldi.
Nos anos seguintes, com muitos talentos despontando no automobilismo nacional, o desafio passou a ser competir no exterior. Há quem garanta que Bueno, se tivesse contado com o mínimo de apoio, teria alcançado uma carreira internacional de destaque. Tentar, bem que tentou, antes mesmo de Emerson Fittipaldi, abrir caminho para a F-1.

Faltou dinheiro para permanecer na Europa

Na temporada de 69, Luizinho e o carioca Ricardo Achcar integraram a equipe do ex-piloto de F-1 Stirling Moss na Fórmula Ford inglesa. “O Moss veio para o Brasil a convite de uma revista e o Ricardo o levou para o Rio de Janeiro onde, após algumas festas, conseguiu convencê-lo a nos receber para um treino na categoria”, conta o ex-piloto.

Luizinho lembra que o teste ocorreu pouco antes do carnaval, no circuito de Brands Hatch, e contou com outros dois pilotos cariocas. Ao fim do dia, Luiz Pereira Bueno foi o mais rápido do grupo. “O Stirling concordou então em pagar para eu competir aquele campeonato. Além disso, pediu para que eu escolhesse qual dos outros brasileiros ficaria como meu companheiro de equipe. Aquilo foi penoso, mas acabei optando pelo Ricardo Achcar, que apesar de não ter sido nem mesmo o segundo mais rápido tinha o mérito de ter nos levado até lá”, confessa Luizinho.
Em sua primeira corrida de Fórmula 1 foi o 6º colocado, correndo com um Surtees.

Luiz Pereira Bueno foi protagonista de corridas memoráveis, como os 500 Km de Interlagos pelo anel externo onde, com um Porsche 908/2,  manteve um duelo impressionante com o suiço Herbert Müller, este com um Porsche 908/3; ou na Áustria, com o mesmo Porsche 908, quando largou no meio das Ferraris de fábrica, junto com pilotos do nível de Ronie Peterson, Jack Ickx, José Carlos Pace, e Arturo Merzário.

Começou a compensar o início desastroso com sua primeira vitória na pista de Snetterton, Inglaterra. As coisas começaram a se normalizar com mais vitórias, vários 2º, 11 poles, 4 recordes de volta em prova e um vice-campeonato.

Voltamos para o Brasil, continua Marco Antônio, para participar de algumas provas de F.Ford, como o Torneio Internacional BUA, com etapas pelo Brasil, com poles, quebras, um 2º lugar em Fortaleza, e 1º no Rio, na 4ª Etapa.

Alguns carros permaneceram no Brasil e a Fórmula.Ford se transformou em campeonato brasileiro, no início, com carros fabricados sob licença da Merlyn pelo Greco. Uma verdadeira categoria escola.

Em 1984, convidado pelo amigo Lian Duarte e pela Equipe Greco, Luiz Pereira Bueno fez sua prova de despedida: os Mil Quilômetros de Brasília a bordo de um Ford Escort. Ficou em oitavo lugar. E para sempre na memória de seus fãs.

A CONTRIBUIÇÃO DA EQUIPE FORD-WILLYS

Quando o automobilismo se tornou mais profissional e as fábricas de automóveis se interessaram em divulgar as qualidades de seus produtos, alimentando o ego dos respectivos departamentos de marketing e dos proprietários de veículos da marca, surgiu a equipe Ford-Willys detentora de um sem número de vitórias nas pistas brasileiras.

Pela equipe desfilaram os melhores pilotos do Brasil na época: Emerson Fittipaldi, Bird Clemente, Luiz Pereira Bueno, Francisco Lameirão, José Carlos Pace, Wilson Fittipaldi Jr., Carol Figueiredo. O comando era do lendário Greco, assessorado pelos mecânicos Mariano e Brizzi, e com a estratégia desenhada pelo engenheiro Francisco Rosa.
Jan Balder, piloto de alto nível técnico que conviveu com Luizinho dá seu depoimento: Acompanhei a carreira do Luiz desde pequeno quando era um dos “ratos” de Interlagos. Ele era o meu ídolo. Vê-lo tocar um Alpine era como uma aula: eles tinham tendência de sair de traseira e ele sabia como ninguém dosar a escapada. Ele sabia o limite e procurava andar para a frente, encurtando distâncias e não perdia tempo atravessando em demasia.

Sua carreira foi alicerçada no profundo conhecimento mecânico e domínio de suas máquinas. Sabia o que tinha embaixo do capô. Foi uma pessoa delicada, o sucesso nunca subiu à sua cabeça, respeitava e papeava com todos.

Com ele passei uma surpresa incrível: no final de 1968, antes dele viajar para a Europa, eu levava uma BMW Schnitzer para os 1.000 Km da Guanabara, em companhia de Chico Landi. Quando fizemos um pit stop no Clube dos 500, em Guaratinguetá, o seu Chico me disse: você vai fazer dupla com o Luizinho. Contestei, e o senhor seu Chico? Nem acreditei quando ele respondeu que desta vez ia ficar no Box.

Pensei na honra de fazer dupla com um campeão e meu ídolo ao mesmo tempo. Quanta responsabilidade. Vínhamos bem na corrida, mas o motor quebrou. Logo depois, em 1969, o Luiz foi para a Inglaterra e fez uma brilhante temporada sagrando-se vice-campeão de Fórmula Ford. Todavia, a mídia não lhe deu muito destaque porque, na mesma temporada, o Emerson foi o Campeão da Fórmula 3, porta aberta para a F-1. Sabia tudo: acelerar, ultrapassar, frear, fugir, assustar, procurar o limite, pisava fundo, corrigia num segundo, um vencedor. Só não soube vencer a doença que o derrubou e o levou. Mas, para sempre ficará entre nós, sempre será lembrado na roda de amigos e de pilotos e do público da sua geração. Sua alma sempre estará alegre em Interlagos, sua paixão contaminará novas gerações que se aventurarem pela sua história.

O mito se foi. Faleceu dia 8 de fevereiro, e já se tornou um cometa no céu, certamente, muito rápido e brilhante.

Texto: Raul Machado Carvalho
Fotos: cedidas por Marco Antônio Lellis