Entrevista – Enrique Bernoldi

3 de março de 2011

O entrevistado deste mês nasceu em 1978 e, aos sete anos de idade, ganhou seu primeiro kart, um presente de seu pai. Desde então Enrique Bernoldi mostrou que tinha talento para entrar no mundo das competições automotivas.  Em 1987 ganhou seu primeiro campeonato no kart, sendo bicampeão Paulista e Brasileiro de Kart; passou pela Fórmula Alfa Boxer; Fórmula Renault européia (campeão em 1996); Fórmula três inglesa (vice-campeão em 1998); Fórmula 3000; Fórmula Um, com passagem pela Arrows, Sauber, e BAR; Fórmula Indy, Stock Car; Fórmula Superliga; e atualmente disputa o campeonato FIA GT.

Nessa entrevista exclusiva Enrique Antônio Langue de Silvério e Bernoldi, esse curitibano nascido em 19 de outubro de 1978, fala sobre sua carreira, seus momentos na Fórmula Um, do ídolo Ayrton Senna, das expectativas para a temporada de 2011, e de um acidente que quase o fez abandonar as pistas.

Acompanhe agora a entrevista com Enrique Bernoldi.

Carros e Corridas – Você iniciou no Kart ainda criança.  Como foi que você descobriu que queria entrar para o automobilismo? Quem foi seu maior incentivador e referência? (Na foto em participação no Desafio das Estrelas).

Enrique Bernoldi –Ganhei o meu primeiro kart no meu aniversario de sete anos e já comecei a correr no mesmo ano. Meu pai foi, com certeza, meu maior incentivador. Ele me levava para treinar todo fim de semana e, inclusive, me colocou na minha primeira corrida sem eu saber. Foi assim que tudo começou.

CeC – Você se recorda de sua primeira conquista no kart? Como foi?

EB – A minha primeira corrida foi em 1986, no campeonato curitibano de kart. Eu era categoria Junior e me lembro que meu pai me inscreveu sem eu saber. Cheguei no dia e corri sem saber que valia pelo campeonato. Larguei em terceiro e cheguei em terceiro. Foi meu primeiro troféu, e isso me animou a participar de outras corridas.

CeC – E sua maior frustração?  Você chegou a pensar alguma vez em não seguir à frente na sua caminhada por conta de algum mal resultado? Ou você fazia disso um impulso a mais para vencer na próxima corrida?

EB – Talvez seja em 1997, quando, após a minha primeira corrida no campeonato inglês de Fórmula três, eu cheguei em terceiro lugar largando da primeira fila. Tinha dominado os testes de inverno, vim para o Brasil e tive um acidente de trânsito. Meu tio estava dirigindo e eu fiquei em coma por três dias. Voltei muito rápido a competir e não voltei bem.  Cheguei a pensar que a minha carreira tivesse chegado ao fim, porque não conseguia andar bem. Mas, assim que parei com as medicações, tudo voltou ao normal. A falência da Arrows também foi dura porque não tive condições de mostrar na Fórmula Um o meu verdadeiro potencial.

CeC – Você tem como ídolo Ayrton Senna. Que exemplos você procurou seguir dele?

EB – Muitas coisas, mas acho que a agressividade nas disputas e ser rápido assim que deixava os boxes. Neste ponto você consegue ter uma vantagem sobre seus adversários e também já os desmotiva.

CeC – Depois do kart no Brasil você teve que ir para a Europa. Passou pela Fórmula Alfa Boxer, Fórmula Renault Européia, onde foi campeão em 1996, Fórmula três inglesa, onde conquistou o vice-campeonato 1998, Fórmula3000, até chegar à F-1. Como foi para você o início na Europa? O que é mais difícil para o piloto brasileiro que procura uma carreira internacional?

EB – Na minha época era diferente. Acredito que talvez fosse mais difícil por não existir celular, internet. Além disso, o meu meio de locomoção era uma bicicleta, que no inverno da Itália não é uma boa. Então a minha adaptação foi difícil e acho que isso acontece ainda hoje. Não é fácil para um garoto com 16 anos morar sozinho em outro país. Também acho que a falta de patrocínios está dificultando a ida dos pilotos para a Europa e isso está se refletindo dentro das pistas. No momento, não temos mais muitos pilotos com chances de entrar na Fórmula Um. E isso há muito tempo não acontecia.

CeC – Após o vice-campeonato inglês de Fórmula três houve maior valorização sua? Apareceram mais convites para você pilotar em outras categorias?

EB – Eu fui vice-campeão. Ganhei muito e também errei muito. O piloto que foi campeão não tinha chances contra mim no campeonato, mas eu era imaturo. Na época, o segundo lugar para mim não existia e eu paguei o preço pela minha imaturidade. Perdi o campeonato mesmo tendo vencido oito corridas no ano. Ou eu ganhava ou saia fora. Sem contar que também tive falta de sorte em Brands Hatch, quando meu companheiro me tirou uma vitória que teria me garantido o titulo mesmo com meus erros. Ter perdido este campeonato me fechou algumas portas, mas deu uma oportunidade na Red Bull. O Helmut Marko (consultor da equipe de Fórmula Um) gostou do meu estilo agressivo e me contratou por quatro anos e foi assim que cheguei à Fórmula Um.

CeC – Não poderia deixar de falar sobre Fórmula um. Você protagonizou no Grande Prêmio de Mônaco de 2001, quando pilotava pela Arrows. Na pista, sem nenhuma deslealdade, segurou David Coulthard, da McLaren. Naquela ocasião o mundo pôde ver o que a TV, geralmente, não mostra, que é a habilidade dos pilotos com carros das equipes menores disputando posições.  Você foi até praguejado pelo Ron Dennis, mas pelas entrevistas que já vi e li você não se arrepende do que fez e de não ter facilitado a passagem para o escocês. Aquilo valeu como uma vitória?

EB – Não me arrependo mesmo. Mônaco foi uma das poucas chances que tive de mostrar o meu talento. Aquilo teve o valor de uma vitoria para mim e para a Arrows. Tinha um carro limitado e me concentrei em não cometer erros, o que é muito difícil em Mônaco. Se o meu tanque de gasolina fosse maior ele teria ficado atrás de mim a corrida toda. (A resposta acompanha um largo sorriso).

CeC – Depois do episódio de Mônaco as portas da Fórmula Um se fecharam ou se abriram para você? O que mudou na sua carreira?

EB – Eu acho que as portas não se abriram e nem fecharam, mas a Fórmula Um começou a me conhecer melhor. Foi a primeira vez que realmente dei as caras na categoria. Ganhei, sim, mais espaço dentro da equipe. Comecei como segundo piloto do Jos Verstappen e aquilo, assim como as 11 vezes que larguei à frente dele nas corridas, me levaram a me tornar primeiro piloto e continuei com esta posição no ano seguinte.

CeC – O Ricardo Zonta chegou a declarar que na BAR o Jacques Villeneuve tinha preferência em relação a ele. A força de patrocinadores ou a falta dessa força podem atrapalhar a carreira de um piloto na Fórmula Um?  É preciso engolir “sapos” para ter de ter uma carreira mais longeva na Fórmula Um?

EB – Você não precisa chegar à Fórmula para ter de engolir sapos. Basta você correr em uma equipe em que você seja pago que isso já acontece. Normalmente, o primeiro piloto já é pré-determinado antes do campeonato começar ou eles tem uma idéia disso. Mas, em algum momento, você terá a chance de mostrar o seu talento e se isso acontecer as coisas mudam de rumo dentro do time.

CeC – E a experiência nos Estados Unidos? Como você avalia sua passagem pela Indy?

EB – Corri por uma equipe muito fraca, que estava estruturada para competir na (extinta) Champ Car e a Indy era bem diferente. As equipes eram mais ricas e tinham anos de experiência em (circuitos) ovais. Para se ter uma idéia, o meu engenheiro nunca tinha feito uma corrida de oval antes da minha estréia e não participamos de nenhum treino. Realmente fiz duas boas corridas, que foram St. Petersburgo, uma pista de rua em que estava chovendo e liderei três voltas, terminando em quinto lugar, e Long Beach, que foi durante muito tempo uma prova do calendário da Champ Car, em que cheguei em quarto. Gostei muito de correr em Indianápolis. Terminar a corrida na volta do líder no meu primeiro ano correndo lá já foi uma vitoria Valeu como experiência.

CeC – Por que você não continuou no automobilismo norte-americano?

EB – Quebrei a minha mão na classificação da corrida de Sonoma e perdi as ultimas três provas do campeonato. Não tive resultados muito bons e não tinha patrocínio, que nos EUA conta muito. Fiz a minha carreira toda na Europa e sou muito mais respeitado lá. Naquele momento não tinha porque e nem como conseguir dinheiro para continuar nos EUA.

CeC – Agora você vai ter a oportunidade de dividir o cockpit da equipe Sumo Power GT no Campeonato Mundial de GT1 com o Ricardo Zonta. O que você espera dessa parceria com um piloto que, igualmente a você, tem mostrado haver outro cenário para os pilotos que pretendem trilhar uma carreira internacional?

EB –Estou muito animado! Pelo fato de correr por uma equipe oficial da Nissan, como a Sumo Power GT, ao lado do Zonta, tenho certeza de que teremos o pacote completo para lutar pelo titulo. Não vejo a hora de começar o campeonato!

CeC – Você se arrepende de alguma coisa que fez no automobilismo? E do que não fez?

EB – Fiz a minha carreira sempre muito de coração aberto dentro e fora da pista, o que não é ideal no automobilismo. Demorei a perceber que a Arrows estava falindo e confiei que eles estariam no grid em 2003 para eu terminaria o contrato de três anos que tinha com a equipe. Talvez, por já estar dentro da F1 teria sido mais fácil negociar a minha estada na categoria em outra equipe. Depois, por estar fora, foi bem mais difícil voltar como piloto de testes pela BAR Honda.

CeC – Que conselho você daria para aqueles que estão iniciando hoje uma carreira no automobilismo?

EB – Acho que a dedicação é o principal. A carreira de piloto passa rápido e é preciso aproveitar cada oportunidade para realizar o sonho que acredito ser o desejo de todo piloto: chegar à F1.

Confira a biografia de Enrique Bernoldi nas pistas:
1987 a 1993: Kart – Bicampeão Paulista e Brasileiro de Kart
1995: Fórmula Alfa Boxer – Quarto colocado
1996: Fórmula Renault Européia – Campeão com nove vitórias em 11 provas
1997: Fórmula três Inglesa – Competindo pela equipe Promatecme foi quinto colocado; terceiro lugar no GP de Macau. Terminou a temporada com uma vitória e seis pódios.
1998: Fórmula três Inglesa – Vice-campeão com seis vitórias; terceiro lugar no GP de Macau e segundo colocado no F3 Masters. Ao longo da temporada, o piloto conquistou seis vitórias, sete pódios e quatro poles.
1999: F3000 Internacional – pela equipe Red Bull Junior. Realizou seu primeiro teste na F1 quando guiou o carro da Sauber no circuito de Magny-Cours, na França. O bom desempenho lhe rendeu a vaga de piloto de testes na escuderia alemã.
2000: F3000 Internacional – Competiu pelo segundo ano na F3000 pela equipe Red Bull Junior. Seguiu como piloto de testes da Sauber na F1.
2001: F1 – Contratado como piloto oficial da equipe Orange Arrows de F1. Conquistou seu melhor resultado no GP da Alemanha, 8º lugar.

2002: F1 – Competiu pelo segundo ano na Arrows. Seu melhor resultado de largada foi o 12º lugar na Áustria sua melhor posição de corrida foi a 10ª colocação na Europa.
2003: World Series – Com a saída da Arrows da F1, o piloto mudou de categoria. Competindo na Fórmula Nissan World Series, venceu duas corridas, conquistou cinco pódios, duas poles e terminou o campeonato em sexto lugar.
2004: F1 – Voltou à F1 como piloto de testes da Lucky Strike BAR Honda. Disputou também sua segunda temporada na Super Nissan e terminou em terceiro no campeonato, com duas vitórias, sete pódios, duas poles e três melhores voltas.
2005: F1 – Continuou suas atividades como piloto de testes da BAR Honda.
2006: Champ Car – Realizou testes pela equipe Rocketsports.
2007: Stock Car – Teve seu primeiro contato com um carro de turismo ao disputar a Stock Car no Brasil pela equipe Genéricos Biosintética Stock Car. Encerrou o campeonato em 13º, com dois terceiros lugares.
2008: Fórmula Indy – Pela equipe Conquest Racing.
2009: Stock Car – Retorna a Copa Nextel Stock Car pela equipe RCM Motorsport, disputa as quatro primeiras etapas.
2009: Formula Superleague – Pela equipe Delta/ADR, defendendo as cores do Flamengo.
2009: Fia GT – Pela equipe Sangari Team Brasil

Agradecimentos: Leonardo Murgel/Reunion Sports & Marketing.

Fotos: Site pessoal do piloto enrique Bernoldi – www.enriquebernoldi.com.br

Texto e Edição: Robério Lessa.

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