Entrevista com o piloto Adalberto Jardim

23 de março de 2011

Nosso entrevistado desta semana é  um dos mais experientes pilotos em atividade no Brasil. Correu por 19 anos na Stock Car acumulando 14 vitórias e 14 poles positions e é o quinto piloto com o maior número de vitórias da categoria. Em 2006 transferiu-se para a F-Truck onde nesta temporada corre pela sua própria equipe. Estamos falando de Adalberto Jardim, que nesta temporada pilota o truck de sua própria equipe, a AJ5 Motorsport.

Este paulista bom de braço começou a correr com um Corcel que tirou da garagem do seu pai, na Avenida Sumaré, em São Paulo, mas, antes de se envolver em maiores problemas decidiu ingressar para correr nas pistas. O ano era 1982 quando, à bordo de Dodge Polara 1.800 fez uma prova de estreantes e novatos em Interlagos.
Daquele dia até hoje se tornou um dos mais competitivos pilotos do país e também um exemplo para muitos, principalmente por manter um nível de pilotagem elevado e, sobretudo, honesto dentro e fora das pistas.

Acompanhe agora essa entrevista de Adalberto Jardim ao jornalista Robério Lessa

Carros e Corridas – Você enfrentou muitos obstáculos no início de sua carreira. Todas elas você superou. O que te motivava a correr de automóvel? Quando você descobriu que era isso o que queria?

Adalberto Jardim – Bom, descobri que era o que eu queria desde que, de fato, coloquei meu próprio carro na pista de Interlagos e me inscrevi como estreante e novato, e para minha surpresa bati o recorde de ser ultrapassado, fiquei tão contrariado que disse: vou me dedicar e ser competitivo.

C e C – O que você não repetiria hoje  se tivesse começando sua trajetória no esporte motor?

A J – Bom para dizer a verdade, foi tão difícil minha trajetória. Aprendi tanto, que acredito hoje repetiria sim quase tudo.

C e C – Foi em 1984 que você, a bordo de um Opala (já usado) disputou a primeira temporada de Stock Car. O que passou na tua cabeça quando alinhou o “Opalão” na sua primeira corrida? Conta como foi essa primeira disputa.

AJ – Nossa nem lembro direito, pois o “Opalão” era tão ruim que preferi esquecer esse episódio.

C e C – Nas pistas você é um exemplo de competitividade e lealdade, tanto é que em 21 anos (19 temporadas) na Stock Car nunca foi desclassificado, o que te rendeu por três anos consecutivos o título de piloto mais combativo e mais leal.  Hoje nos defrontamos com jovens em início de carreira apelando para expedientes questionáveis e chegando a bater deliberadamente o carro contra outro piloto, como vimos na disputa da Fórmula três Sulamericana.  Está faltando mais firmeza nas punições para vermos as corridas sendo decididas nas pistas e não nos tribunais?

AJ – Com toda a certeza, faltam sim punições, mas punições exemplares e não somente monetárias, porque se o piloto tem dinheiro paga e repete de novo.  O que tem que acontecer é suspender a licença por uma corrida e na segunda por duas e assim sucessivamente.

C e C – Em 1999 você conheceu a Fórmula Truck, através de seu amigo Djalma Fogaça. Como foi sua primeira corrida nos caminhões, tendo chegado em terceiro lugar, no circuito de Tarumã?

AJ – Na época o Fogaça tinha se machucado e fui fazer um treino com ele em Guaporé, e acabou se machucando mais ainda, e por esse motivo eu corri no lugar dele e foi muito divertido.

C e C – A sua transferência como piloto para a Truck aconteceu em 2006. Porque tanto tempo entre sua primeira corrida até uma temporada completa?

AJ – Porque não me interessava nem um pouco com a Fórmula Truck. Estava bem na Stock Car e achava os caminhões muito lentos naquela época claro, porque quando decidi estrear em 2006, vi que não tinha nada mais a ver os caminhões daquela época. Hoje são extremamente rápidos…um carro grandão eu costumo dizer.

C e C – Você pilotou pela Iveco em 2008. Em 2010, o piloto Beto Monteiro conseguiu a primeira vitória da Iveco na Truck. Como você viu a evolução de uma marca que ajudou a evoluir?

AJ – Foi uma grande experiência essa da Iveco, pois eu acertei minha ida para lá com o saudoso Aurélio (Aurélio Batista Félix), e aconteceu a grande fatalidade para todos nós e principalmente para mim em particular, pois ele tinha grandes planos e um grande projeto para a Iveco. Hoje fico contente da marca ter se consolidado, pois lá tem um time legal, a engenharia envolvida, o marketing também, enfim, quem trabalha colhe os frutos e parabenizo todos da Iveco, e o Beto que dispensa comentários pois é um dos melhores pilotos na Truck.

C e C – Depois da experiência na equipe DF Motorsport, do Djalma Fogaça, você monta sua própria equipe a AJ5 Motorsport. O que podemos esperar da AJ5 Motorsport em 2011?

AJ – Olha estou muito feliz por ter a oportunidade de ter minha própria equipe e a vaga também, pois te da mais segurança de conseguir em médio prazo fazer um trabalho de continuidade, pois em 2010 andei com minha própria equipe, mas com uma vaga alugada, o que não dá definitivamente uma segurança, pois acaba que você trabalha faz um bom campeonato e a vaga vai para outro que paga mais, mas agora tudo muda para melhor, mais sacrifícios, mas vai valer, então pode assistir ai que vou dar trabalho.

C e C – Você vai correr só com um caminhão ou terá um companheiro de equipe? E quem será?

AJ –Vou sozinho nesse inicio de equipe nova e ano que vem sim planos para outro piloto.

C e C – Você já parou para pensar na jornada dupla de piloto e chefe de equipe?

AJ – Sim, fiz isso durante muitos anos, na Stock, aliás foi um tempo que mais ganhei corridas.

C e C – Após ter pilotado para várias marcas na Fórmula Truck. Qual a sua aposta para a temporada de 2011? Você acredita no equilíbrio das forças?

AJ – Claro que acredito no equilíbrio das marcas, até porque estão entrando pilotos novos e novos profissionais trazendo novas tecnologias e métodos de trabalho mais evoluído.

C e C – A montagem de uma equipe na Truck encerra a equipe da Copa Montana?

AJ –Sim encerra a equipe Montana. Quero me dedicar totalmente neste inicio de campeonato.

C e C – Em entrevista ao site Carros e Corridas, em 2009, Djalma Fogaça, instigado a fazer uma análise sobre o automobilismo brasileiro, dado as viagens por conta das corridas da Truck, ele fez críticas à falta de apoio às categorias de formação. Na época perguntei ao Djalma se ele achava que as montadoras deveriam dar maior apoio às categorias de formação e ele respondeu “DF – Eu acho sim, mas entre achar e as montadoras comparecerem, existe uma diferença muito grande. Na realidade, o que falta mesmo é um empenho maior. Aliás, me deixa eu corrigir, falta empenho por parte da CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo). Essa instituição se gaba de muitas coisas, mas que categorias existem hoje de fato no Brasil? Só duas: Formula Truck e Stock Car V8. O resto é o cocô do cavalo do bandido. E essas duas categorias são dirigidas por empresas que nada tem a ver com Confederação, apadrinhamento ou política alguma. Então, nosso forte, que sempre foram às categorias de monopostos (fórmulas), onde se preparava o piloto, já não existem mais. O futuro do Brasil na F1 vai ser cada dia mais difícil, porque hoje dependemos de pilotos com pais abastados que vão fazer carreira lá fora. E nesse tempo todo que milito nesse esporte, sempre pude notar que desses endinheirados, 99% não guiam nada. Então, essas categorias fazem uma falta tremenda.

Você concorda com o Djalma? Que análise você faz do atual momento? Há mais profissionalismo hoje?

AJ –Pois é, eu não tenho filho competindo em nenhuma categoria então não posso afirmar algo tão contundente assim, mas em parte concordo que deveriam dar mais incentivos aos campeonatos regionais, pois são verdadeiros heróis tentando um lugarzinho ao sol e todos nós sabemos, inclusive o Djalma que para se ter um bom inicio como ele teve tem que ter um pai sim que apóie tanto em dinheiro quanto apoio moral. E ele teve muito apoio do pai que era uma pessoa fantástica e incentivador do esporte a motor. Portanto, não só no Brasil, como em qualquer pais, se formam pilotos a custa de pais com poder e com condição financeira boa para gastar com a carreira do filho, pois esse esporte todos nós sabemos que é caro. Vejo também alguma mudança na CBA acredito que vão haver mais incentivos, pois se não houver, o automobilismo como um todo vai falir.

C e C – Hoje a gente vê notícias que envolvem federações automobilísticas como trampolim para desvio de dinheiro. Em um esporte como o automobilismo, onde a falta de apoio acaba frustrando e, verdadeiramente encerrando a carreira de alguns talentos, um desvio de função daqueles que deveriam dar maior incentivo ao fomento de novos talentos?

AJ –Acredito e digo sempre que os dirigentes tem que ser oriundos do automobilismo, ou seja a política e os aproveitadores de plantão realmente estão em todas as partes e na maioria dos esportes. Ocorre que no automobilismo tem algumas coisas que assustam mesmo. Como podem existir tantas federações se nem existe automobilismo em algumas regiões!? Nem uma pista de kart indoor tem, ou seja, aí tem Né? Eu gostaria de que os pilotos, os donos de equipes que tanto gastam para que o automobilismo exista, deveriam eleger seus dirigentes e não as federações.

C e C – Infelizmente tivemos um ano de 2010 encerrado de forma triste, no qual três pilotos perderam a vida nas pistas. O automobilismo envolve riscos que podem ser minimizados. Ao longo de 25 anos você deve ter se deparado com situações perigosas. Como é conviver com o perigo e ser competitivo?

AJ –É claro que é um esporte de risco! Sabemos que riscos existem! Óbvio que, já que estamos nesse esporte, com o mínimo de inteligência se sabe onde diminuir as armadilhas de um mau projeto, e olha que já corri no Eusébio e digo que é, no mínimo, uma injustiça com aquele povo de heróis que por não ter outra opção esses sim se arriscam e são enganados por entrarem em uma corrida que não tem o mínimo necessário para se correr com riscos minimizados, acredito que Fortaleza uma cidade importante no cenário brasileiro, não ter um autódromo ou uma prefeitura que negocie com o setor privado para se construir um autódromo que pode ser de multiuso para seu povo é muito desprezo, mas enfim o que fazer.

C e C – Há espaço para o medo nas pistas?  Como aliar risco com competitividade? Ou jamais essas duas palavras devam ser unidas no automobilismo?

AJ –Tem sim que existir sempre o medo, o medo de machucar pessoas que estão ali para prestigiar, para torcer, então somente esse é meu medo. Riscos existem em tudo, aliás, tem muito mais riscos numa estrada ou numa rua do que nas pistas. A competitividade vem aliada não só aos riscos, mas ao conhecimento técnico e acerto do seu carro. Quanto a essas duas palavras elas obviamente estarão sempre juntas.

C e C – Qual o desejo do piloto Adalberto Jardim para 2011?

AJ –Bom, estou muito feliz por me sentir com essa vontade e sentir como se estivesse começando agora minha carreira, e com desejo de ser muito competitivo e não perder nunca esse tesão que é correr por muitas vitórias.

C e C – E do homem Adalberto Jardim para 2011?

AJ –Eu desejo que o mundo fique um pouco em paz pelo menos, e que em um pais como o nosso de muita abundancia de alimentos, que não tenha gente passando fome principalmente as crianças.

C e C – Depois de tanto tempo nas pistas qual o segredo para manter-se motivado?

AJ –O segredo é amar o que você faz, não importando o que seja, mas ser verdadeiro consigo mesmo e acreditar sempre que pode ser competitivo.

Fotos: Orlei Silva e arquivo do Site oficial do Piloto.

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