O dia que conheci Ayrton Senna

10 de maio de 2012

Acompanhe no Carros e Corridas a nova coluna do jornalista Eduardo Abbas.

Estou de volta com minha coluna, aproveitei a folga na Fórmula 1 na semana passada e resolvi também descansar uma semana até porque nada de muito especial aconteceu nesse meio tempo. Tirando a corrida da Indy em São Paulo, que teve uma prova bem disputada, mas muito mal transmitida pela Band, e a Stock Car que continua sendo a pedra no sapato da audiência do Esporte Espetacular na Globo, o mundo da velocidade andou “calmamente” nos últimos dias.

O mês de maio, para quem gosta de esportes de emoção como é o automobilismo é um mês particularmente triste. Foi em maio que perdemos o Ayrton, vimos a batida que quase vitimou o Piquet em Indianápolis e o acidente que ceifou a vida do Gilles Villeneuve. Todos gênios, todos pilotos vencedores e que apenas os brasileiros eu tive a honra de conhecer. O Nelson tem poucos anos, já um piloto aposentado e durante a gravação do Linha de Chegada, programa que eu dirigia para o canal Sportv. O Ayrton Senna não, esse foi logo no começo de carreira dele na Fórmula 1.

Os tempos eram outros, não existia internet, blog, twitter, assessor de imprensa, os jornalistas que faziam a cobertura de eventos como a Fórmula 1 eram meio marginais, o esporte não era essa festa toda que acontece hoje no mundo. Pouca gente se ligava em quem estava aonde e fazendo o que, quase ninguém ouvia falar de quem quer que fosse um determinado corredor, vivíamos um fim de ditadura misturada a uma completa decepção da seleção brasileira no futebol na copa de 86 no México.

O presidente da república era o José Sarney, nossa moeda o cruzado e eu, voltando para a TV Globo, após 3 anos de uma primeira passagem. Foi em uma noite, eu era um dos editores do extinto SPTV 3ª edição, apresentado pelo então recém chegado William Bonner, que vejo adentrar a redação do jornalismo o Reginaldo Leme. A TV Globo ficava nessa época na Praça Marechal Deodoro, centro da cidade de São Paulo e era, digamos, um lugar que não demonstrava o verdadeiro tamanho da emissora no Brasil e no mundo. O Reginaldo me viu e me perguntou:

– Ué, você voltou?
– Voltei, cansei de ficar longe daqui!
– Porra, que legal! Vem cá, será que você me ajuda num lance que preciso fazer?
– Claro Regi, o que acontece?
– Eu convidei um piloto novo pra uma entrevista, mas não tem ninguém da Gerop (gerencia de operações) pra arrumar algumas cadeiras no estúdio e avisar a engenharia da gravação.
– Espera um pouco, deixa eu ligar pra um ramal aqui e ver o que acontece.

Enquanto eu dava meu telefonema, vi o William se aproximar do Reginaldo e começarem uma conversa. Um era um mito o outro um curioso que estava tentando se enturmar e entender a nova emissora que ele agora defendia, perto deles tinha o Mauricio Kubrusly terminando um texto pra aquela noite e o Rubens Ewald Filho se despedindo, pois acabara de gravar o off do comentário de cinema.

– Regi, já consegui arrumar o estúdio e as pessoas da operação, que horas esse piloto vai chegar?
– Eu marquei com ele às 10 da noite, já são 9 e meia, deve estar estourando!
– Bom, vou descer até o estúdio e ver se tem duas cadeiras pra você poder fazer a entrevista tá?
– Boa! Eu vou com você e já fico esperando ele lá.

Descemos dois lances de escada, passei pela portaria e avisei para a segurança que teríamos um convidado e que assim que ele chegasse me informasse no ramal 315. Seguimos para o estúdio, coloquei as duas cadeiras e deixei o Reginaldo sentado lá se preparando para a entrevista. Tudo pronto faltava apenas o convidado. Subi até o switter e perguntei pelo PA:

– Regi, como se chama esse cara que vem aí?
– Não sei se você conhece, é um cara novo, Ayrton Senna, sabe quem é?
– Claro que sei caralho! Esse cara ganhou tudo até agora!
– Ainda bem, porque quase ninguém sabe quem é ele.

E era mesmo verdade. As pessoas da técnica não faziam a menor idéia de quem se tratava, nem mesmos os jornalistas que estavam na redação, alguns sequer ouviram falar nele, mas como eu era um rato de autódromo e conhecia vários pilotos desde os anos 70, o nome além de familiar já era respeitado no automobilismo brasileiro, portanto eu era um dos poucos que sabia de quem se tratava.

– Regi, vou terminar de arrumar a casa aqui e já desço pra te sugerir umas perguntas pra ele, tudo bem?
– Boa! Vem mesmo!
Nesse meio tempo, toca o ramal:
– Alô?
– Aqui é da portaria, tem uma visita pro Reginaldo, pode subir?
– Quem é a pessoa?
– (fone distante) Como é mesmo seu nome?
– Ayrton (fala a pessoa ao longe).
– É o seu Anilton.
– Ah tá, pode deixar ele subir.
– Tá certo, mas qual é mesmo sua matricula?
– 6631.
– Ele já ta indo, é pra redação?
– É sim, vou esperar na porta.
– Tá certo.

Fiquei na porta corta-fogo da entrada da redação esperando a figura. Lá veio ele, magrelo e com cara de cansado.

– Eduardo?
– Oi Ayrton, tudo bem?
– Tudo bom, o Regi já chegou?
– Já e tá tudo pronto pra gente gravar.
– Legal, eu tenho que ir ainda na casa da minha irmã, quanto antes melhor.
– Vamos passar aqui pela redação e vamos direto pro estúdio ta?
– Tá ok.
Entramos na redação e as pessoas olhavam para ele sem entender direito quem era, apresentei o Bonner e o Kubrusly quando ele parou na frente de um monitor.
– Caramba, tá passando o Chico Anysio show! Deixa eu ver um pouco?
– Eu disse, claro, mas não quer ver no estúdio? O monitor de lá é maior.
– Quero, vamos!
Na descida falamos um pouco sobre a Fórmula 1, perguntei do motor Honda para 87 e logo coloquei ele sentado no cenário.
– Regi, espera um pouco, deixa acabar o Chico Anysio e a gente já faz tá?
E lá ficou ele, se cagando de rir das piadas do Chico enquanto eu sugeria algumas perguntas pro Reginaldo fazer. Foram mais de 30 minutos de espera e quando acabou o Chico Total começamos a gravação.
Coisa rápida, 15 minutos de conversa e no fim eu pude então ver uma cena que se tornaria comum nos anos seguinte quando eu o encontraria por várias vezes dentro e fora dos autódromos. Todos na emissora resolveram pedir autógrafo, fizeram fila, trouxeram os mais variados tipos de papel e ele, solícito, atendeu a todos.

Poucos sabiam de quem se tratava, menos ainda o que ele fazia, mas quase ninguém imaginava que estava diante do futuro tricampeão do mundo.

O Reginaldo se despediu dele no estúdio mesmo, tinha que voltar e editar o material pro Globo Esporte do dia seguinte, eu fui acompanhar ele até a porta da emissora esperando ver o carrão que ele deveria estar guiando.

– Obrigado Ayrton, ficou legal a entrevista.
– Eu também achei, mas será que vai passar toda?
– Acho difícil, mas a edição tira pouca coisa.
– Que bom, tô precisando mesmo.
– Legal, boa sorte lá na Fórmula 1 e na nova Lotus no ano que vem tá?
– Obrigado. Ah, vem cá, será que não daria pra gravar uns programas do Chico em VHS pra eu assistir na Europa?
– Vou ver, depois o Reginaldo te fala.
– Tá bem, obrigado.

Saiu ele pela porta andou alguns metros para entrar no carro que estava encima da calçada. Quase caí de costas! Era um fusca 75, azul calcinha e queimando óleo. Quando ele deu a partida parecia a cortina de fumaça do batmovel.

Lá foi ele embora, descendo da guia e acelerando na Avenida São João, que fica embaixo do elevado Costa e Silva, em direção ao bairro de perdizes.
Foi uma noite diferente nas tão iguais que fiquei durante os anos que trabalhei nesse horário. Foi uma noite que pra algumas pessoas que estavam lá naquele momento lembrarem, como eu, para o resto da vida. Foi uma noite em que vi o grande Ayrton Senna dirigindo um fusca.

Ah, as fitas com o Chico Total, o Galvão Bueno se encarregou de levar.

A gente se encontra na semana que vem!
Beijos & queijos

Escreva para o colunista: coluna.site@gmail.com
Acompanhe Eduardo Abbas no Twitter: http://www.twitter.com/borrachatv

Tags: