Eduardo Homem de Mello concede entrevista ao Carros e Corridas

23 de julho de 2012

Eduardo Homem de MelloPor Robério Lessa – Na semana passada, dois assuntos dominaram a atenção do público que acompanha o automobilismo brasileiro. As últimas corridas no autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, e o afastamento do piloto Marcos Gomes, preventivamente, das competições automobilísticas, por 30 dias, por decisão do Presidente do Superior Tribunal de Justiça Desportiva pela presença de “substâncias proibidas” no exame antidoping procedido durante a terceira etapa do Campeonato Brasileiro de Stock Car.

Neste dia escrevia algumas perguntas para o Ex-piloto e comentarista Eduardo Homem de Mello sobre a participação da Fórmula Truck no autódromo do Eusébio, no Ceará. Não pude perder a oportunidade de saber a opinião de quem vive o automobilismo brasileiro e conhece muito da realidade nas pistas do país. Fiz mais algumas perguntas fora as da pesquisa sobre a passagem da Truck na pista cearense e reproduzo agora nessa breve entrevista.

Eduardo Homem de Mello iniciou sua carreira no automobilismo nos anos 1970, quando disputou provas de moto. Em 1077 entrou para o kart.  Em 1991 foi campeão paulista de Fórmula 200, categoria que criou (em 1990) e que utilizava kart com motor de moto. A Fórmula 200 fez a preliminar do Grande Prêmio de Portugal de Fórmula Um, no ano de 1993.

Um ano antes, em 1992, implantou a Fórmula Chevrolet. Venceu a edição de 1994 das Mil Milhas Brasileiras. Em 1997 assumiu a organização da Copa Corsa, na qual conquistou os títulos em 1997 e 1998. Foi dele também a ideia de criar uma categoria com pick-ups quando, em 2005, deixou de competir oficialmente.

Hoje, além de comentar as corridas de Fórmula Indy no Band Sport e da Fórmula Truck, na Band, participa, ao lado do jornalista Celso Miranda, do programa Supermotor no Band Sport, sempre às 21h das quartas-feiras.

Acompanhe aqui no Carros e Corridas a entrevista com Eduardo Homem de Mello.

Carros e Corridas – Acompanhando seu trabalho percebo uma grande preocupação com a segurança. Você acha que houve evolução neste quesito dentro das pistas brasileiras?

Eduardo Homem de Mello – Sempre tive uma preocupação muito grande, talvez excessiva com segurança. A minha, a dos adversários, do publico, isso sempre foi um ponto fundamental em todas as corridas que participei pilotando, organizando e promovendo.

Para você ter uma ideia, em 1990 eu introduzi a Fórmula 200 (kart com motor de moto, com seis marchas e de altíssima performance, com velocidade final próxima de 200 km por hora) em São Paulo.  As corridas eram disputadas em circuitos de rua das cidades do interior do estado e sempre fui eu que desenhei os circuitos e acompanhava pessoalmente a montagem, dando atenção máxima às barreiras de pneus a fim de proteger publico e piloto.

Meus equipamentos de segurança, macacão, capacete, luvas, sapatilhas, sempre foram os mais avançados tecnologicamente, pois não concebo um piloto gastar cinco ou seis mil Reais num jogo de pneus, cuja eficiência dura duas voltas, e economizar no material usado para proteção de seu corpo.

Quando meu filho Cassio Homem de Mello começou a correr, a primeira coisa que ensinei a ele é que seja qual for o momento, treino oficial, não oficial, prova não valida, ou seja o que for, a vestimenta tem que estar completa e absolutamente dentro dos padrões exigidos pela FIA e dentro do prazo de validade.

C e C – Que avaliação você faz do automobilismo brasileiro no momento? Faltam categorias de base?

EHM – A avaliação que eu faço hoje é a pior possível. É muito, mas muito triste ver o automobilismo naufragando do jeito que está. Acho que a gestão presidencial da CBA é falha e acima de tudo desinteressada com o esporte em si. Se por um lado vemos um autódromo renascendo como o de cascavel, vemos um outro, o do Rio, sendo esquartejado aos olhos dos dirigentes para abrigar uma olimpíada que não agrega em nada, muito pelo contrário, vai consumir bilhões e bilhões dos cofres públicos para depois ser desmontada e vendido o terreno a preço de ouro para as empreiteiras construírem prédios na área do autódromo.

C e C – A Fórmula Truck é a única categoria que ainda realiza corridas no Nordeste. Apesar do Ceará está de fora, mantém a corrida em Caruaru (PE). Sei que graças à categoria muitas melhorias foram e são realizadas nas pistas nordestinas. Não deveria haver mais corridas no Nordeste? O que falta para isso?

EHM – Claro que deveria haver mais corridas no Nordeste, mas, infelizmente, as condições prioritárias de cada estado são outras. Eu penso que o povo nordestino tão sofrido tem outras necessidades e não acho justo o governo investir em autódromos com setores de básicos, como saúde, educação, etc… tão carentes.

C e C – Falando de Nordeste, a Bahia prefere fazer uma prova de rua a ter de investir em um autódromo. Não está na hora da Bahia ter um autódromo a altura do seu público?

EHM – Aí já é outro problema! O Governo do estado da Bahia investe uma fortuna numa corrida de rua, perigosa, sem largura suficiente para receber carros velozes como os da Stock Car. Sou completamente contra esse tipo de atitude dos governantes, pois se a situação do estado fosse exemplar, aí sim justificaria um investimento tão alto num esporte tão caro.

C e C – Qual o maior pecado e o maior mérito do automobilismo brasileiro hoje?

EHM – O maior pecado é não ter dado atenção alguma às categorias de base, pois é de lá que saem os grandes pilotos, é lá que os mais talentosos mostram suas habilidades e aqui no Brasil infelizmente deixaram acabar a ultima categoria que poderia sustentar esse aprendizado, que é a Formula Future do Felipe Massa.

C e C – O que você pensa sobre o último caso de doping (Marcos Gomes) no automobilismo brasileiro?

EHM – Essa é uma questão muito, mas muito delicada que pode colocar um final triste na carreira de um piloto talentoso como o Marquinhos. Eu sou muito amigo do pai dele, o Paulo Gomes, nossas famílias se conhecem há anos, o outro filho dele, Pedro Gomes morou em minha casa no início de sua carreira, meu filho é muito amigo deles também, e posso GARANTIR (grifo do entrevistado) que nunca, nunca, nunca, vi qualquer indício de drogas entre eles.

Quando eu digo que é uma questão muito delicada é que pelo simples fato de ser pego no antidoping não significa que o garoto seja viciado. Muitas vezes um remédio tomado inadvertidamente, a Efedrina , por exemplo que está presente em vários remédios antigripal pode gerar um questão como essa.

Para saber: A  Efedrina  é um composto químico encontrada em certas plantas da família das efedráceas. É empregada como medicamento. A substância é uma amina simpatomática similar aos derivados sintéticos da anfetamina, muito utilizada em medicamentos para emagrecer, pois ela faz que o metabolismo acelere, queimando mais gordura (através da termogênese – produção de calor).  Pela propriedade termogênica  é base para  composição de produtos termogênicos  utilizados por pessoas que querem associas á atividade física para perder maior percentual de gordura. 

Texto e Entrevista: Robério Lessa

Foto: Arquivo pessoal do entrevistado.