Entrevista com Claudio Carsughi

4 de novembro de 2012

Claudio carsughiNesta segunda (05) Claudia Carsughi lança o livro “Claudio Carsughi – Meus 50 Anos de Brasil”, que relata a rica história e experiência do jornalista esportivo ao longo das últimas cinco décadas, atuando nas mídias de rádio, TV, jornal, revista e ultimamente também na internet. A obra de 239 páginas ricamente ilustradas poderá ser autografada pelo personagem e pela autora a partir das 18h30 na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo.

Antes do lançamento da obra o site Carros e Corridas entrevistou este personagem que faz parte da história do automobilismo e do jornalismo brasileiro.

Escrito com grande precisão e riqueza de detalhes, a filha Claudia Carsughi demorou quatro anos para relatar a vida de seu pai desde 1946, quando desembarcou com a família no Rio de Janeiro até os dias de hoje, quando completou 80 anos. Toda a sua carreira foi transcrita ao longo da obra, falando, por exemplo, de sua primeira avaliação automobilística, o teste da Romi-Isetta, a Copa do Mundo de 50, de 70, sua ligação com o motociclismo e automobilismo, as corridas de Fórmula Um, os testes que realizou na Itália guiando carros da Ferrari e os depoimentos de amigos e companheiros de trabalho.

Acompanhe a entrevista:

Carros e Corridas – Falando do livro que conta seus 50 anos de Brasil escrito pela sua filha Claudia Carsughi. O senhor se sente duplamente realizado ao ver sua história contada por aquela que o senhor viu nascer?

Claudio Carsughi – Sim, sobretudo pela razão de não acreditar no projeto e ter-me surpreendido, ao ler as provas antes de irem para a gráfica, e gostar do conjunto. Ficou um livro leve, interessante e, em vários pontos, divertido.

CeC -O senhor foi editor da Quatro Rodas. Nesses anos, desde o primeiro teste com uma Romi-Isetta, o senhor se impressiona com a evolução dos carros e da indústria automobilística?

Carsughi – Claramente houve uma tremenda evolução tecnológica no mundo todo, com reflexos também no Brasil, embora em alguns casos, como o da eletrônica embarcada, com sensível atraso.

CeC – O senhor pertence a uma geração que sonhou muito com o avanço da sociedade, mas desde a introdução da linha de montagem, por Henry Ford, convivemos com duas realidades. Uma população excluída e carros que só faltam falar. Que análise o senhor faz deste paradoxo?

Carsughi – É o maior desafio do mundo moderno permitir a inclusão dos que nada tem no círculo dos potenciais clientes.

CeC – Nossa indústria nacional ainda deve ao consumidor carro com maior qualidade?

Carsughi – Em alguns casos sim. Veja por exemplo, a VW que tem um nível tecnológico em seus carros importados bem superior ao presente nos carros aqui produzidos. Mas isso se deve também ao público que não pretende tanto e se contenta com alguma “perfumaria”. Se fosse uma clara exigência, teríamos também aqui ESP e ABS praticamente de série.

CeC – Na opinião do senhor, o brasileiro reconhece os pioneiros, os personagens que iniciaram toda a história do Automobilismo Brasileiro?

C Carsughi – Não, na melhor das hipóteses tem apenas uma vaga lembrança. Por exemplo, de Chico Landi.

CeC – O senhor chegou ao Brasil em março de 1946, nesse tempo todo, qual foi o fato mais pitoresco que o senhor presenciou?

Carsughi – As quatro corridas de moto no quarto centenário de São Paulo, quando os organizadores deram um fenomenal calote em todos os participantes e fizeram a Federação Brasileira de Motociclismo ser eliminada da FIM.

CeC – O senhor poderia relatar como foi a participação da Copersucar e que importância ela teve no automobilismo brasileiro e mundial?

Carsughi – A Copersucar foi um episódio importante na história do automobilismo brasileiro mas, na minha impressão, teria tido muito mais facilidades se tivesse estabelecido sua base operacional na Inglaterra, onde tudo fica à mão e se obtém com muita facilidade.

CeC – Qual foi o piloto que mais o impressionou?

Carsughi – Juan Manuel Fangio, o único a vencer um Mundial com um carro (Maserati) inferior aos concorrentes (Ferrari), em 1957.

CeC -Se tivesse de fazer uma relação dos 10 melhores pilotos brasileiros que o senhor viu correr, quais seriam?

Carsughi – Sem uma ordem de mérito, mas apenas cronológica, colocaria num patamar especial Emerson, Piquet e Senna. Depois os demais, como Pace, Christian Heins, Barrichello, Massa e tantos outros.

CeC – E os de todo o mundo?

Carsughi – Fangio e Clark.

CeC – A Mercedes pode recuperar hoje o que foi nos tempos de Fangio?

Carsughi – Acho muito difícil, quase improvável.

CeC – E a Ferrari. Como italiano que é, o senhor acredita que a Ferrari tem a sua maneira de ver e entender as corridas? Neste caso o mal falado jogo de equipe não é sempre posto para beneficiar a escuderia, que é maior que os pilotos na visão (pelo menos a que passa para quem acompanha de longe) ferrarista?

Carsughi – Claramente o que importa é a Scuderia, não este ou aquele piloto, seja qual for sua nacionalidade. Certa vez em Imola vi os torcedores irem contra Patrese, que é italiano, e a favor de um piloto estrangeiro que estava, porém, sentado no cockpit de uma Ferrari. Isto explica tudo.

CeC – A Ferrari é a escuderia que mais chamou sua atenção?

Carsughi – Claramente a Ferrari, por razões óbvias.

CeC – Muito se fala que o talento do piloto foi deixado de lado em detrimento da alta tecnologia embarcada nos carros da Fórmula Um? O piloto ainda faz a diferença?

Carsughi – Em parte sim. Veja onde Alonso está levando a Ferrari deste ano que é inferior a Red Bull e McLaren.

CeC -Falando de Alonso. Ao que parece ele busca o domínio da escuderia. Foi assim na Renault, com o escândalo do Nelsinho Piquet. Teve a Briga na McLaren com o Hamilton, e na Ferrari ele parece dar as cartas. Fora o fato de ser um grande piloto, não parece ser o Alonso um sujeito de difícil trato dentro da equipe?

Carsughi – Não tenho essa impressão, estive ano passado em Maranello para uma série de matérias de meu site e um capítulo de meu livro e o que vi é Alonso ter ganho a amizade e o carinho de todos pelo seu trato fácil e amigável.

CeC – Com Alonso na Ferrari, Massa tem alguma chance?

Carsughi – Depende só dele.

CeC – Está certo o Felipe fazer o papel de segundo piloto?

Carsughi – Massa esteve bem perto do título mundial em 2008, perdendo-o por culpa dos erros de box da Ferrari. Agora tem um companheiro de equipe que é o melhor piloto da atual F1. Mas se – hipoteticamente – na metade do próximo campeonato ele estiver, em pontuação, bem á frente de Alonso é certo que a Ferrari vai jogar todas suas fichas nele.

CeC – O que o senhor espera do Brasil na Fórmula Um para os próximos anos?

Carsughi – Que apareça um novo grande piloto, pois o público brasileiro, em 90% dos casos, está acostumado a só se interessar pela F1 se tiver um brasileiro campeão. O automobilismo, como esporte de alto conteúdo tecnológico, só apaixona no máximo 10% dos espectadores.

CeC – Há automobilismo viável no Brasil sem categoria de formação de pilotos?

Carsughi – Acredito que não. Além do que correr aqui custa muito, melhor ir parta a Europa onde se tem maior visibilidade.

CeC – Rubens Barrichello não foi mal compreendido e injustiçado? Afinal os títulos da Ferrari não têm a contribuição dele?

Carsughi – Aqui no Brasil Barrichello foi até alvo de chacota na TV pois pretendiam que fosse o novo Senna.

CeC – Como o senhor analisa esse momento em que os pilotos têm de levar dinheiro para conseguir um lugar para correr, seja na Fórmula Um ou na Fórmula Indy?

Carsughi – O mercantilismo que se apoderou da F1 é o causador disso.

CeC – E o Bruno Senna? Parece que perdeu a vaga na Williams. Há a expectativa para que ele possa ir para a Sauber ou Force India?

Carsughi – São hipóteses por ora em aberto.

CeC – E o Luiz Razia?

Carsughi – Temos que aguardar para ver.

Lançamento do livro “Claudio Carsughi – Meus 50 anos de Brasil” – Dia: 05 de novembro – Horário: 18h30 –  Local: Livraria Cultura do Conjunto Nacional –  Endereço: Avenida Paulista, 2073 – Bela Vista – São Paulo (SP).

Agradecimentos: Claudia Casurgui e João Alberto Otazú.

Fotos: Divulgação (Claudia Carsugui) ne Scuderia Ferrari.