Ruben Carrapatoso em entrevista ao Carros e Corridas

2 de fevereiro de 2014

Ruben  Carrspatoso  (8)Um dos maiores nomes do kart mundial, Ruben Carrapatoso é detentor de um título muito perseguido por vários pilotos, mas somente poucos podem se orgulhar de terem sidos campeões mundial de Kart. O nosso entrevistado, o primeiro deste mês de janeiro, conquistou o título mundial em 1998, cinco anos após sua estreia no kart (1993).

Curiosamente, 20 anos após ter entrado para o universo das corridas ele sagrou-se Campeão  Brasileiro de Kart na Segunda Fase da 48ª edição do Brasileiro de Kart, realizada em 2013, na cidade cearense do Eusébio, correndo pela categoria Sênior “A”.

Ruben Carrapatoso  (7)

 

Acompanhe a entrevista ao repórter Robério Lessa, exclusiva para o Carros e Corridas.Com passagem pela Fórmula Ford da Inglaterra, e da Fórmula Renault da Itália, Stock Car e Endurance, Carrapatoso é hoje responsável pela entrada no Brasil dos chassis da ART GP,  divide a organização do Super Kart Brasil, e é coach de alguns pilotos.

Carros e Corridas – O que levou você a entrar para o automobilismo? Que influências você sofreu e quais suas maiores referências no automobilismo?

Ruben Carrapatoso  (13)

Ruben Carrapatoso – Bom, acho que como a maioria dos pilotos, foi por causa do meu Pai. Ele é um amante do motorsport e me levava sempre para ver as corridas de kart em Interlagos, daí para começar a correr foi um passo. Eu comecei a andar na equipe do Maurão, em São Paulo, que me ensinou os primeiros passos, e esta foi a minha primeira influência. Penso que, o Ayrton Senna e o Piquet foram minhas principais referências, quando comecei.

CeC – Você tem um currículo invejável. Com tantos títulos no kart, o que ainda motiva você quando entra em uma competição?

RC – Boa pergunta. A resposta correta seria Desafio. Entro na pista sempre com algo novo que me desafia como piloto. Primeiro fiquei sete anos sem correr de kart, e voltei com o desafio de trabalhar com a Thuder, em 2010, e agora voltei depois de dois anos com a ART Grand Prix, como diretor e como piloto, que me dá uma motivação dupla.Ruben Carrapatoso (5)

CeC – Como foi ter conquistado o título de Campeão Mundial de Kart, em 1998 quando superou Fernando Alonso e Ryan Briscoe?

RC – Fui o terceiro brasileiro a ganhar o mundial. Temos o Guga Ribas, em 1984, e o Gastão Fraguas, em 1995, mas sou o único em atividade. Ser o melhor do Mundo em alguma coisa já é indescritível, mas ser o melhor do mundo no esporte que você mais ama é algo incomparável, não é a toa que ainda sou muito respeitado na Europa, pois lá sabem o quanto é difícil conquistar um mundial. Na época Fernando Alonso era somente um adversário muito competitivo e rápido da Espanha, assim como Ryan Briscoe, nunca imaginei que o Alonso seria Bicampeão da F1 e o Briscoe seria piloto da Penske.

Ruben Carrapatoso  (9)

CeC – Você disputou a Segunda Fase do Brasileiro de Kart e esta ficou marcada, dentre outras coisas, pela criação de uma comissão de pilotos que teve assento à mesa da direção de prova, naquela ocasião, e que ganhara uma dimensão maior

RC – Difícil, porque o Velopark decidiu há pouco tempo fechar as portas. Acredito que a CBA não sabia dessa informação, e no Brasil, não é fácil encontrar pistas que caibam 200 pilotos como é no Brasileiro, temos esse mesmo problema com o SKB, então ficamos presos a pelo menos quatro a cinco pistas no Brasil que conseguem receber esse tipo de evento, e como o Brasileiro para CBA também tem cunho político, fica difícil decidir aonde vai ser. Mas não estou sabendo do contato da comissão, mas estamos de portas abertas. sobre as decisões futuras na escolha das sedes da competição. Passado o campeonato, e a recusa do Velopark em sediar as duas fases do Brasileiro de Kart em 2014, gostaria de saber se a CBA, em especial a CNK, tem mantido contato com essa comissão, e de que modo os pilotos estão contribuindo para essas tomadas de decisões?Ruben  Carrspatoso  (10)

CeC – Falando do lado bom do Brasileiro de Kart. Que lições você tirou da competição e do título na Sênior A?

Ruben Carrapatoso (4)RC – Adoro dificuldades, e se para a maioria dos pilotos andar no cimento não foi muito bom, eu, pelo contrario, tirei o máximo proveito, pois nunca tinha andando naquelas condições, onde se você saísse fora do trilho meio metro, estava fora da pista, então exigia um grau de concentração muito grande, para nós fazermos voltas iguais, o que me deixou muito motivado a ganhar em tal condições. Saí de lá sabendo como andar no cimento, para mim foi valido.

CeC – Você foi campeão em 2013 usando um chassi novo (ART) que está desenvolvendo e trazendo para o Brasil. Como você avalia esse momento em que temos tantas marcas boas no mercado? Isso é indicativo da força que o Kart Brasileiro tem e de um crescimento potencial se for devidamente incentivado e gerenciado?

Ruben Carrapatoso  (2)

RC – Acho ótimo, isso só faz o mercado brasileiro crescer ainda mais, a competição entre marcas é muito sadia, pois acelera o desenvolvimento e baixa os custos, por exemplo, quem produz o produto com melhor desempenho e melhor preço, com certeza vai liderar o mercado.

CeC – Você diria que temos um kart competitivo no Brasil?

RC – Sim, temos ótimos pilotos e ótimos equipamentos.

CeC – O kart dois tempos foi, para alguns, um grande vilão para a popularização do kart por conta dos custos, então apareceram os karts com motores quatro tempos, que eram restritos ao kart indoor (aluguel). Hoje a evolução dos motores dois tempos diminuíram esse abismo financeiro que havia em relação aos dois motores?

Ruben  Carrspatoso  (6)RC – Acho que depois da homologação dos motores a água esse custo abaixou muito, pois esse tipo de motor costuma durar o dobro dos que eram refrigerados a ar.

CeC – Você consegue acompanhar outras categorias no país? E que avaliação você faria do atual momento do Automobilismo Brasileiro?

RC – Bom isso não é difícil, pois só temos algumas categorias, e eu trabalho em uma delas, na Stock Car, faço o trabalho de telemetria no carro do Gabriel Casagrande, onde estamos com um buraco grande nos monopostos, e não vejo em um futuro próximo uma solução para isso, a não ser que a CBA e algum promotores invistam em alguma categoria de base. Na ART GP nos estamos implantando uma escola de monoposto, que deve entrar em ação ate o final de 2014.Ruben  Carrspatoso  (4)

CeC – O que está faltando para termos outros campeões internacionais?

RC – Alguém que se dedicasse ao Kart Europeu 100%.

CeC – O fim de uma categoria como a Fórmula Future, que era administrada pela família Massa, põe em risco a formação de futuros pilotos brasileiros de ponta no automobilismo internacional?

RC – Sim, pois estamos sem categorias de base, para o piloto que quer seguir carreira.

Ruben  Carrspatoso  (7)CeC – Na Argentina as indústrias de automóveis têm maior envolvimento com o automobilismo. Você acha que falta esse envolvimento no País onde sequer há tabela diferenciada (e incentivo fiscal pelos governos) para aquisição de peças e financiamento de carros para categorias regionais, que são suporte e essencial para a sobrevivência do automobilismo nos estados?

RC – Com certeza, na Argentina apesar da crise o Automobilismo continua muito vivo, e é por causa dos incentivos que eles têm do Governo. Se fizessem igual aqui, seria muito melhor.

Ruben Carrapatoso  (6)

CeC – Você buscou uma carreira fora do Brasil, passando pela Fórmula Três inglesa e pela Fórmula Renault inglesa, mas não consegui devido à falta de patrocínio. Você guarda alguma mágoa por não ter conseguido seguir seus planos iniciais nas Europa? Como foi ter que trabalhar como mecânico na Tony Kart?

Ruben Carrapatoso  (15)RC – Há 10 anos atrás, quando tive oportunidade de correr na F1, com certeza fiquei frustrado, pois era uma vida inteira dedicada a isso, e ver que não iria acontecer me deixou chateado, mas agora olhando para trás, vejo que só me fez crescer como pessoa, e talvez não tivesse um monte de coisas que tenho agora, como minha família. Foi bom trabalhar de mecânico, na Europa é quase normal para quem faz parte do programa das fabricas, se eles te pagam você tem que retribuir de alguma forma, não somente guiar, então você trabalhava na fabrica e ajuda alguns pilotos na pista, isso ajudou bastante na minha formação, me fez ver a situação por outro ângulo.

CeC – Você disputou a Stock Car e hoje não está mais na categoria. Qual o motivo? Os novos planos não conseguiram conciliar com a categoria?

Ruben Carrapatoso

RC – Disputei as temporadas de 2006 e 2007 pela mesma equipe. Não estou mais por pura desmotivação. Nas 22 corridas que fiz, só completei quatro, as outras 18 parei por falhas mecânicas, então colocavam a culpa em mim e descobri tempos mais tarde que um mecânico me sabotava, colocando peças velhas no meu carro e vendendo no paralelo as novas. Isso me fez brochar totalmente. Hoje só faço algo, para ganhar dinheiro, não vou sair que nem louco para arranjar dois milhões de Reais e ter o perigo de acontecer de novo e eu ficar sem um tostão de todo esse dinheiro. Trabalho na categoria, porque amo automobilismo, mas agora estou do outro lado da moeda.

CeC – Você teve uma experiência na Stock no comando da estratégia do carro do Gabriel Casagrande. É mais fácil estar do lado de fora do carro?

Ruben CarrapatosoRC – É muito mais fácil pilotar, do que esta no controle de tudo fora do carro.

CeC – Você teve uma passagem pelos Estados Unidos, onde andou na American Le Mans Series, pela Porsche. Como foi essa experiência? Que dificuldades você teve de superar?

RC – Foi muito legal, andar de Endurance era totalmente novo para mim, e gostei muito. Pena que fui para o USA na pior época possível, em 2008 teve uma grande crise e acabei tendo que voltar para o Brasil, o que foi ate bom, porque foi à época que voltei a trabalhar com Kart, através do Pietro Fantin, aonde eu era Coach dele.Ruben  Carrapatoso

CeC – O kart é considerado a base indispensável para a formação de um piloto, não deveria haver um maior rigor nas punições aos pilotos que se excedem dentro das pistas de kart quando ainda são jovens? Falo isso com base nas inúmeras competições da categoria, onde percebemos que alguns competidores das categorias Novatos e Mirim, literalmente atropelam os adversários para galgar um posto melhor dentro da prova, e, muitas vezes, a pena que têm é um acréscimo de segundos ao tempo final, ficando o prejuízo para aquele que investiu, buscou patrocínio e foi tirado da prova por uma atitude questionável. A CBA não estaria sendo didática ao impor um maior rigor, a exemplo do que ocorre em outros países (ouvi um relato do Rafael Suzuki no qual disse que no Japão há um rigor imenso e atitudes desleais podem até gerar a proibição do piloto em competir no campeonato)?

Ruben CarrapatosoRC – Com certeza, concordo que precisamos de um maior rigor nas punições por aqui. Mas isso só quem pode fazer é a CBA.

CeC – Você não concorda que os fiscais deveriam ter mais cuidado, uma avaliação menos apressada na hora de julgar uma atitude na pista? Faço a pergunta por que já vi mudarem de opinião após punirem um piloto. Além disso, acredito que nas provas eles poderiam aproveitar a experiência de ex-pilotos, que teriam maior participação no automobilismo nacional. Com a larga experiência poderiam ser consultado nas decisões que, muitas vezes, são modificadas?Russo, Carrapatoso, Jimenez, Carscasci e os irmãos Dirani (da esq. para a dir.)

RC – Acontece muito, mas como você falou, eles não têm experiência de pista. Fazemos isso no SKB, três dos nossos cinco comissários são ex-pilotos.

CeC – Como surgiu a ideia do Super Kart Brasil? E que avaliação você faz do campeonato, além do projeto (desculpe se já está colocado em prática) de incentivo à carreira para jovens pilotos?

RC – A ideia é de fazermos um evento que colocasse as nossas ideias em prática. Surgiu a partir do Sérgio Jimenez que foi nos chamando (Danilo e Dennis Dirani, Andre Nicastro, Paulo Carcasci, Renato Russo e eu), a ideia era fazer um campeonato que tivesse o que não tivemos quando éramos menores.

Ruben  Carrapatoso 1CeC – Existe planos para levar o SKB para outras regiões, como o Nordeste?

RC – Sim, mas é muito difícil. Sairemos do eixo Sul e Sudeste se tivermos algum incentivo para o transporte do material daqui para lá, caso contrário continuamos por aqui.

CeC – O que espera o piloto Ruben Carrapatoso de 2014?

RC – Fazer mais um Brasileiro com sucesso.

CeC – O que espera o homem Ruben Carrapatoso de 2014?

RC – Atingir todas as metas como empresário.

Ruben  CarrapatosoCeC – O que você repensaria em sua carreira se tivesse a oportunidade de começar do zero novamente?

RC – Talvez ter ido antes para os USA. Fora isso, nada.

CeC – Além de piloto, você divide sua agenda como Coach. Qual a responsabilidade de um Coach na formação de um piloto?

RC – Muita, pois é ele que vai dar a direção na formação de um novo talento.

Ruben  Carrapatoso2CeC – Para encerrar. Qual a grande dica que você daria para quem está começando no automobilismo?

RC – Não desista. E siga seu sonho.

CeC – Qual o grande sonho de Ruben Carrapatoso?

RC – Ser bem sucedido em tudo que eu fizer.

Fotos:  Danúsio Jr./Robério Lessa e Maurício Villela/Divulgação.

2007-2014 – carrosecorridas.com.br – Todos os direitos reservados – Proibida a reprodução sem autorização