O site Carros e Corridas volta a publicar a Coluna do Lua, do Jornalista Carlos Mauro Cintra, o Lua.
Renomado jornalista brasileiro, Lua, como mais gosta de ser chamado por todos, é parceiro de longas datas do site e retorna neste 12 de novembro trazendo seu olhar sobre o Grande Prêmio São Paulo de Fórmula 1.
Sem eclipse e sem mais palavras, espero que vocês leitores do Carros e Corridas apreciem a pena de mestre Lua.
Uma vitrine para Norris
O GP de São Paulo de 2025 entrou para a história como mais uma obra-prima do automobilismo brasileiro. Interlagos, com sua pista sinuosa e imprevisível, entregou não apenas duas corridas memoráveis, mas um espetáculo completo que reforçou por que este é um dos eventos mais apaixonantes do calendário da Fórmula 1.
A organização foi impecável. Desde a fluidez no acesso até a segurança reforçada e os setores bem distribuídos, tudo funcionou como um relógio suíço fabricado sob-licença na Paulicéia. O público respondeu à altura: 312 mil pessoas ao longo do fim de semana, com um detalhe que não passa despercebido: 37% das arquibancadas eram ocupadas por mulheres. Uma torcida cada vez mais diversa, animada e, sim, cada vez mais bonita. O setor G pulsava em rosa, o A vibrava em laranja, e o clã do Hamilton nunca pareceu tão em casa fora de Silverstone.
E os Pilotos fizeram a mais divertida e bem-vinda Parada de Pilotos do ano, diria até, da categoria.
O céu de Interlagos também fez seu show à parte. Logo após o Hino Nacional, executado com precisão aviões da Embraer cortaram as nuvens em formação perfeita, soltando fumaça nas cores da bandeira brasileira. Foi o tipo de momento que arrepia até quem já viu de tudo na F1.
As corridas? Puras obras de arte. Sprint com ultrapassagens na curva do Sol, largada caótica sob garoa intermitente e uma prova principal que teve de tudo: safety car, estratégias ousadas de duas paradas, batidas, pneus intermediários deixados quietos no canto e um Norris absolutamente dominante.
Ele venceu as duas provas, liderou todas as voltas possíveis e transformou Interlagos na sua vitrine particular. O mais provável Campeão do Mundo de 2025 teve aqui o palco perfeito para brilhar.
Uma pena, porém, que Lando ainda não tenha encontrado o tom certo para se comunicar com as torcidas que o olham com desconfiaça. O jeito tímido, as respostas curtas, o sorriso meio sem graça nas entrevistas pós-bandeirada ainda geram espaço para bullying – inclusive por parte da imprensa não inglesa, que parece não perdoar o facto de um britânico jovem, rico e talentoso ser… bem, exatamente isso tudo. Na minha visão, é só ciúme passageiro. Quando o título vier (e virá), até os críticos mais ácidos vão ter que aplaudir de pé.
Interlagos 2025 deixou aquela sensação gostosa de dever cumprido. Uma pista com personalidade forte, emoldurada por uma meteorologia ainda mais impulsiva, que nunca entrega o mesmo GP duas vezes. Aqui se confirmam excelências (Verstappen), se fazem ídolos (Antonelli), se quebram corações e se criam histórias que a gente conta por anos. Norris saiu maior do que entrou. E nós, torcedores, saímos com a certeza absoluta: voltaremos sempre. Porque Interlagos não cansa de ser Interlagos. E isso, meu amigo, não tem preço.
Vamos deixar o Bortoleto em paz?
Gabriel Bortoleto chegou a Interlagos 2025 como piloto da Sauber, o primeiro brasileiro titular na F1 depois de 12 anos. O que deveria ser celebração virou sufoco.
Desde a quinta-feira, a agenda era um looping de entrevistas sem fim: rádio, TV, streaming, podcast, TikTok ao vivo, selfie com político, abraço em ex-piloto, foto com fã chorando, foto com a avó! Todo mundo queria um pedaço do “novo herói nacional”.
No paddock, repórteres faziam fila para perguntas que não tinham nada a ver com carro ou estratégia: “Você sente o Brasil nas costas?”, “Vai dedicar a corrida ao Senna?”, “O que sua avó acha disso tudo?”. A cada resposta educada, mais flashes. A cada silêncio, mais especulação. O talento de 21 anos, campeão da F3 em 2023 e da F2 em 2025, ficou em segundo plano e não pode nem trabalhar direito. O menino virou personagem antes mesmo de largar.
Na pista, o peso emocional cobrou caro. Batida forte, rufar de tamnores à espera do carro ficar pronto para a Q1, largada lá atrás, tentativa de utrapassagme frustrada. Nada que um estreante não passe, mas aqui cada erro virou manchete de capa. “Pressão engole Bortoleto”, gritaram na internet. Como se ele tivesse escolha.
Força, Gabriel. Você tem mãos rápidas, cabeça boa e personalidade que ainda vão calar muita boca. Essa atenção exagerada é só o preço de ser o brasileiro da vez num país que adora criar ídolos para depois cobrar a fatura. Respira. Respira com calma. O próximo GP em Interlagos é só daqui a 12 meses. Até lá, você volta a ter o controle da sua vida, do seu tempo, do seu talento.
Em 2026 prometo que vai ser diferente: menos babação, mais ação. Menos lágrimas alheias, mais voltas rápidas suas. O Brasil vai aprender a torcer sem sufocar. E você, piloto, vai mostrar que talento de verdade não se apaga – só precisa de espaço para brilhar.
Fotos: GP São Paulo de Fórmula 1 e Pirelli Motorsport.











