Contando a História do Automobilismo Cearense: Dos tempos do Pici –
Por Robério Lessa
Olá amigos do Carros e Corridas.
Em mais um relato sobre a História do Automobilismo Cearense vamos falar de um personagem, que tem forte ligação aos tempos em que as corridas eram disputadas na antiga pista do Pici.
Gerardo Magela Costa Mourão (carro número dois) é de um tempo em que se corria com os carros usados diariamente. Com poucos ajustes e a colocação de sacos de areia para dar mais estabilidade nas curvas, a geração de Magela foi de fundamental importância para o surgimento do Autódromo Virgílio Távora.
Para começar a falar sobre nosso personagem, vamos lembrar um pouco mais do início das corridas que relatamos aqui no Carros e Corridas (clique aqui) quando os primeiros aventureiros faziam as corridas “contra o relógio” no chamado “circuito” da Beira-Mar.
Depois dessas corridas na Beira-Mar surgiu a ideia de organizar melhor tais competições quando o jornalista, escritor e empresário Luiz Campos de Queiroz, então presidente do Automóvel Clube do Ceará, iniciou esta mudança.
Além da necessidade de abrigar um número maior de admiradores, havia um desejo maior naqueles pioneiros, o de dar continuidade ao que José Queiroz (foto- Reprodução de jornal da época) começara. Sem a presença do Zé Queiros, como era mais conhecido, morto em um acidente de barco na Praia Mansa, aos 35 anos de idade, seus amigos entenderam que a melhor forma de lembrar aquele que sonhava em inserir o Ceará no mundo das corridas de automóveis.
Seria no que é hoje o Campus do Pici, da Universidade Federal do Ceará- UFC, o espaço ideal para que as corridas fossem realizadas com maior segurança.
Como forma de viabilizar a criação da Federação Cearense de Automobilismo (FCA) vários clubes sociais associaram-se nesta empreitada como forma de apoiar a iniciativa. Deste modo, clubes como Círculo Militar, Náutico Atlético Cearense, Barra do Ceará, associaram seus nomes à recém criada entidade. Junto desses clubes estava a Associação Cearense dos Volantes de Competição Ceará (primeira entidade a reunir os competidores do automobilismo cearense) ACeVC.
Aos poucos as corridas no Pici atraiam mais pilotos (José Queiroz, Armando Barbosa Lima, Fernando Ary, Miguel Bang Bang Fernandes, Eduardo Amarílio (“Filho do Padre”), Baiano, João Quevedo, César Figueiredo, e , em algumas ocasiões destacados no automobilismo nacional, como Bird Clemente, os irmãos Bandeira de Recife, Wilson Fitipaldi, e outros que compunham das equipes Vemag e Bino.
As disputam levavam cada vez mais espectadores, a ponto de se tornar perigoso a realização das corridas, uma vez que o público ficava desguarnecido.
Foi pensado então em recapear a pista e construir um lance de arquibancadas, mas aos poucos, começou a surgir a ideia de criar um espaço mais seguro, de se construir um autódromo de verdade. Não aquele do Pici em que se usava o antigo traçado de uma extinta Base Aérea Norte Americana deixada pelos militares ianques após a Segunda Guerra Mundial, mas sim um novo autódromo e em outro lugar.
O Pici deixou de ser viável por causa de questões judiciais envolvendo a extinta Companhia Aérea Pan Air, proprietária dos terrenos do Pici.
Foi nesse contexto que o nome do governador Virgílio Távora começou a entrar para esse mundo que mistura sonhos, velocidade, borracha, motores e combustíveis. Virgílio não só deu apoio aos dirigentes e pilotos cearenses, bem como foi um dos que incentivou a criação da Confederação Brasileira de Automobilismo.
A ACeVC se organizou num clube cujos fundadores subscritores e proprietários pioneiros eram na sua maioria pilotos do tempo do Pici, e aficionados como: Ribamar da Silva, Etevaldo Nogueira, Olívio Costa, Murilo Serpa, sob o comando de Tarcílio (Neném) Pimentel, adquiriu 33 hectares de terreno, que pertencia a um sítio, localizado no município do Eusébio.
Mas antes de passarmos para o Eusébio é preciso contar um pouco da história do Pici. E um daqueles que participou das corridas na antiga pista de pouso foi Gerardo Magela Costa Mourão um dos personagens que vai nos ajudar a construir essa história.
Magela (na foto ao lado do sobrinho Eduardo Mourão, também piloto), como todos o conheciam começou a correr no Pici em 1967 com uma Vemag Bel Car “S”. Sem grandes preparos levava à pista o mesmo carro que usava diariamente nas ruas da capital cearense, até mesmo a alavanca de câmbio na coluna do volante era preservada.
A identificação de Magela com as corridas vai além do trabalho de seu pai, empresário do setor de transporte rodoviário. Sua casa era localizada na rua de acesso ao Pici. Por lá passavam todos aqueles que buscavam a diversão na extinta base aérea. “A Casa de meus pais era caminho de passagem para os que iam correr e assistir as corridas no Pici. Era um tempo em que a cidade de Fortaleza não tinha tanta rua asfaltada e algumas nem calçamento possuíam. Então tinham os conhecidos que paravam para tomar água, lanchar, tomar café. Assim eu fui crescendo com isso e logo, logo passei a frequentar o lugar também”, revela.
Inicialmente transgredindo as regras em rachas na companhia de José Saboya Bezerra e Estácio Brígido Magela encontrou na pista do Pici o lugar ideal para realizar o sonho de correr nas corridas de automóveis. “Eu estava com 18 anos, tinha acabado de tirar a carteira. Eu me lembro de que saía atrás do Estácio Brígido e do José Saboya. Quando eles passavam pegava meu carro e tentava alcançar os dois. Daí, comecei a frequentar o Pici. Não havia nenhuma intensão de fazer corrida. No Pici não tinha muita regra. Vi gente correr de ônibus, Rural, F-100. À tarde era vez dos pegas, mas tudo começou com o Neném (Tarcílio Neném Pimentel). A gente se reunia para brincar, uns tirar racha e outros só para sair de casa, mas aí a turma do Neném (Tarcílio “Neném” Pimentel) começou a organizar as corridas”.
Magela contou com o apoio dos pais. Sua mãe Maria Zelita Costa Mourão não chegou a ir ver o filho correr no Pici, mas sempre fazia festa para recebê-lo após as disputas. Em uma dessas ele havia se dedicado ao máximo à preparação de seu DKW, e despontava como favorito a ponto da “Dona” Maria Zelita planejar comemoração a sua primeira vitória que não se concretizaria por causa de uma artimanha do preparador, o mesmo para vários pilotos.
“Estava tudo pronto em casa para que eu chegasse com o troféu de vencedor. Eu sempre fui um piloto combativo. Não era o melhor, nem muito menos andava lá atrás. Sempre andei entre os primeiros, quando muito no bloco intermediário e nessa corrida eu tinha tudo para ganhar. Saí de casa com a certeza de que voltaria com a vitória. Minha mãe preparou bolo, refrigerante, uma festa, mas tivemos que comer tudo sem ter vencido a bem dita corrida e tudo porque o meu mecânico deixou frouxo os platinados do carro. Larguei bem, estava na frente com uma vantagem enorme para o segundo colocado, mas, há poucos metros da linha de chegada meu carro foi falhando, falhando, e parou de vez. Depois ele me disse que deixou frouxo o platinado porque eu não havia dado 20 Contos de Réis para ele. Fiz a corrida toda na frente, seria minha primeira vitória. Tenho vários troféus, mas nunca venci uma corrida”.
Se sua mãe o incentivava e festejava seus resultados seu pai, Júlio Nogueira Mourão, não só acompanhava-o nas corridas como tomava conta dos boxes e ajudava nas tarefas de cada corrida. “Meu pai era da equipe. Lembro que ele ficava correndo nos boxes, pra lá, e pra cá, sempre preocupado com alguma coisa, ajudando na preparação e incentivando”.
Magela tem uma forte ligação com o Pici por conta do espírito desafiador que o local representou para todos os pilotos da época. Mesmo com a construção do autódromo Virgílio Távora, foi no Pici o nascedouro dessa história. “As corridas no Pici, para mim, representam o começo de tudo. Por ser meio improvisado havia aquele espírito de aventura, era como um desafio. Não sei se por ser o local onde comecei a correr eu tenho esse carinho por aquele lugar”.
Na semana que vem vamos falar de outro personagem dessa época, uma pessoa cuja trajetória no universo das corridas se confunde com a própria História das pistas cearenses.
Essa lendária figura chama-se Tarcílio Pimentel, ou como é mais conhecido, Neném Pimentel.
Mas isso fica para a semana que vem.
Até lá.
Fotos: Arquivo Pessoal do Piloto/Arquivo Pessoal de Minho Pimentel/ Nelson F Bezerra – Foto acima de Abril de 1962 – Do álbum pessoal de Neném Pimentel.




