Acompanhe aqui no Carros e Corridas mais uma coluna Velocidade, escrita pelo jornalista Robério Lessa.
No ano de 1992 mantive meu primeiro contato profissional com o Automobilismo Cearense, quando ainda repórter da Rádio O Povo (1010 Kw – Fortaleza-CE) me deslocava na unidade móvel até o Autódromo Internacional Virgílio Távora. Ali, vi correrem os carros de Marcas, Protótipo e Fórmula Ford. Conheci o Joca Ferraz, pernambucano que ajudava a aumentar o espetáculo, principalmente por conta da rivalidade com os cearenses. Também conheci o Fernando Câmara, o Aloísio Filho, o Ary Gambarini, o Aldemir Gouvêia, o Hybernon Cysne, o Lula Silveira, o Pedro Virgínio, o Alexandre Romcy, o Mano Rôla, e tantos outros.
Foi naquele ano o meu primeiro contato com um universo que até então só conhecia pelas páginas da Tribuna do Ceará, do Estado, do O Povo e do Diário do Nordeste. Era como uma criança em loja de doces. Ainda dando meus primeiros passos no jornalismo, tinha de manter distante a emoção para poder relatar, ao vivo, as disputas no traçado cearense.
Depois da Rádio o Povo e da Rede Cearense de Notícias, iniciei no Grupo Verdes Mares em 1997, quando passei a conviver de perto com Pedro Virgínio. Ele me apresentou um mundo desconhecido, o dos construtores, projetistas e sonhadores cearenses, os responsáveis pelas máquinas que via na pista.
De 1992 até hoje (01 de novembro de 2015) presenciei muitas histórias e muitos momentos nesse universo de carros e corridas, mas nesta sexta (31 de outubro de 2015) presenciei o encerramento de um ciclo e, infelizmente, representa mais um duro golpe no cambaleante Automobilismo Cearense.
Talvez os dirigentes dos clubes do carros de competição que competem no autódromo não percebem que tem outra turma disposta a ocupar o autódromo com motos e os carros de arrancada, enquanto a falta de um consenso entre os que integram as categorias Marcas, Superturismo e Protótipo (CTM e Spirit) acaba por afugentar os que antes colocavam seis carros no grid de uma só categoria.
Ver aqueles carros sendo levados, definitivamente, para São Paulo me encheu os olhos de lágrimas e me causou uma certa revolta. Revolta sim, porque não consigo entender como homens de sucesso na vida e em seus negócios não conseguem sentar e zerar suas diferenças pelo bem maior, o nosso automobilismo?
Há dois anos competindo em São Paulo, o piloto Paulo Plutarcho aguardou a retomada da categoria protótipo, ensaiou colocar dois carros no Cearense de Marcas, mas não obteve sucesso e, vendo a falta de perspectiva decidiu doar seus três Spirit e três CTM para a Wessler Racing e manter-se na Classic Cup, Força Livre Top Series, MArcas Paulista, Endurance e Clássicos e Competições competindo com Classic Fusca, Karmanguia, Voyage, Fiat, Celta, Corsa, além da protótipo com um modelo Spyder e o modelo inglês Reiner.
Em 2014, seu primeiro ano no Automobilismo Paulista, concluiu a temporada com o maior número de pontos somados no ranking da Federação de Automobilismo de São Paulo (Fasp), somando 860,53 pontos, resultado de seis vitórias, 10 pódios, quatro pole positions e uma melhor volta. A pontuação da Fasp premia a regularidades dos pilotos em suas categorias e a pontuação do cearense surpreendeu a todos, inclusive os que igual a ele disputam por três ou mais categorias. Clique aqui e veja o ranking.
Ao lado de Plutarcho, Minho Pimentel, que foi o responsável por projetar os dois Karmanguia da equipe Boteco Praia/Totolec na Copa Classic, também decidiu por competir em São Paulo ao lado do filho Stênio Pimentel, e do primo Antônio Pytta.
Vale lembrar que a equipe maranhense Memps Racing também retirou seus cinco carros (três spirit e dois CTM) das corridas no Ceará e até mesmo outros pilotos tem levado seus carros para participar de provas fora do estado.
Se os carros da equipe comandada por Paulo tem destino certo, o mesmo não pode ser dito aos outros bólidos que aqui permanecem à espera de competições no Eusébio.
Quando Neném Pimentel liderou um grupo de amigos e doou terras de sua família para a construção do Autódromo Internacional Virgílio Távora, jamais imaginou que a falta de união pudesse ser maior do que a vontade de competir em uma pista projetada para isso, com toda segurança necessária e exigida para a prática do automobilismo.
Neném!
A ti agradeço por ter liderado seus amigos.
A ti agradeço por ter sido o mentor disso tudo.
A ti também apelo para que aponte um norte a ser seguido.
Das crises surgem soluções, mas parece haver uma letargia, “uma vontade de deixar como estar para ver como é que fica”. E aí vem a pergunta: O que precisa acontecer mais para acabar definitivamente com uma categoria, a qual, nos anos 1990, despertou interesse do tricampeão de Fórmula Um, Nelson Piquet?
Faço aqui um apelo aos que fazem os comandantes dos clubes e seus participantes.
Façam algo para que esse êxodo não seja a caneta para escrever o capítulo final de uma história merecedora de vários capítulos a serem escritos.
Para mim, a diferença que deveria haver seria a dos milésimos de segundos em uma disputa honesta e dentro da pista, e não fora dela comportando-se como uma potente bactéria que corrói um corpo frágil e sem tratamento adequado.
Robério Lessa é jornalista, editor do site Carros e Corridas e escreve sobre automobilismo desde 1992.
Fotos: Rodrigo Ruiz, Danúsio Jr. e Robério Lessa.
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