Nosso entrevistado iniciou no automobilismo aos 14 anos no Kart, vencendo títulos Pernambucano e Nordestino de Kart. Beto Monteiro também competiu pela Copa Corsa Metrocar, em São Paulo, e na Fórmula 3 italiana. Foi premiado com o troféu Capacete de Ouro, em 2004, mesmo ano em que se tornou campeão na Fórmula Truck.
Em conversa com o jornalista Robério Lessa, Beto falou sobre a falta de apoio aos pilotos nordestinos, as dificuldades enfrentadas na carreira e muito mais. Confira essa entrevista exclusiva com Beto Monteiro, piloto da equipe Iveco na Truck brasileira.
Carros e Corridas – Como você se sente sendo apontado como um dos principais representantes do Nordeste no automobilismo brasileiro?
Beto Monteiro – Na verdade eu fico orgulhoso, mas por outro lado vejo que ainda falta muito apoio ao automobilismo do Nordeste, pois hoje só tem o Valdeno Brito e eu correndo nas maiores categorias do país. Isso se deve porque não se é dado o devido apoio aos pilotos nordestinos.
C&C – Você concorda que essa falta de apoio reflete no menor número de pilotos da região?
BM – Sim. Não é pela falta de piloto de qualidade, mas sim pela ausência de apoio para que outros pilotos nordestinos possam ter destaque em campeonatos nacionais, para que possa haver uma maior participação daqueles que nasceram em nossa região.
C&C – Ainda sobre essa questão, alguns pilotos reclamam da falta de oportunidades de realizar testes e até mesmo preconceito. Você foi vítima disso na quando começou na Copa Corsa, em São Paulo?
BM – Na verdade, um pouco. Não pelo preconceito em si, mas pelo fato das pessoas não acreditarem que o Nordeste tem automobilismo de qualidade. Acredito que falte, por parte das grandes empresas sediadas no Ceará, Paraíba, Pernambuco, Bahia, e nos outros estados do Nordeste, incentivo aos pilotos. É comum você competir com pilotos de outros pontos do país levando o patrocínio de empresas nordestinas, enquanto isso, muitos bons pilotos deixam de seguir uma disputa nacional por não ter nenhum patrocínio. A discriminação começa pelos próprios empresários, e isso, realmente, me deixa chateado. É a velha história de que santo da casa não faz milagre.
C&C – Nesse ano a Stock Car competiu na Bahia em uma prova de rua, enquanto que os autódromos do Eusébio (CE) e Caruaru (PE) não receberam provas desta categoria, apesar da Fórmula Truck correr nessas duas pistas. Você ache que esses dois autódromos carecem de maior estrutura?
BM – De fato, é esse o grande problema do automobilismo do Nordeste, porque as autoridades competentes que podem fazer mais por isso, já que as autoridades de uma região dependente do turismo não entendem o automobilismo como atrativo para o setor turístico. Investir em um circuito não é apenas investir em um local para meia dúzia de pessoas, hoje, o automobilismo gera renda por onde passa. Veja o exemplo de Santa Cruz do Sul (RS). Lá eles aplicaram só este ano mais de R$ 6 Milhões e ainda vão investir mais R$ 8 Milhões em melhorias de infraestrutura. Para as cidades que recebem a Fórmula Truck o legado é bem maior que dinheiro gasto no autódromo. A Stock não vai para o Nordeste por falta dessa boa estrutura. A Fórmula Truck ainda vai, mas com um compromisso de melhoria dos autódromos. Sempre com uma cobrança forte sob pena de não mais voltar para aquela cidade. Exigimos melhorias e eles têm de fazer.
C&C – Sobre a Truck. Como você analisa essa fase de crescimento, de internacionalização da categoria?
BM – Eu fico muito confiante porque tentei uma carreira fora do Brasil e, quando voltei, fui convidado pelo Aurélio (Aurélio Batista Félix – Criador da Fórmula Truck no Brasil) e tive a sorte de entrar em uma equipe certa. Já tive até alguns convites para a Stock Car, mas, me sinto bem na Truck e, principalmente, pelo fato de poder pilotar por uma equipe que tem condições de lutar pela vitória e por títulos.
C&C – Você já passou pela equipe da Ford, Scania e hoje está na Iveco. Quais as metas para 2010? O objetivo é o título?
BM – O objetivo da Iveco, que estreou em 2008, era de estar no pódio em 2009. Mas eu queria ganhar corrida com Iveco esse ano, e, aos poucos a gente vem evoluindo. Percebo que o caminhão é bom, tem tudo para que em 2010 seja apontado como uma forte equipe. Lógico que o trabalho de desenvolvimento não pode parar e os erros desse ano fizeram com que a equipe, como um todo, crescesse.
C&C – Por falar em briga por vitória você acabou se envolvendo em um acidente com Wellington Cirino, na etapa da Argentina. Ficou alguma rusga após esse episódio.
BM – Sempre tive uma amizade forte com o Cirino, uma amizade muito grande, antes mesmo de entrar para a Fórmula Truck. Eu considero isso um acidente de corrida, uma situação de corrida onde dois pilotos estão disputando uma posição no grid e acabou acontecendo. Eu não quero saber quem está certo ou errado. Pra mim foi um acidente de corrida e na pista ficou, não vou levar adiante essa disputa. Pra mim o fato encerrou. Corrida é Corrida.
C&C – Está onde estar hoje foi um caminho galgado com algumas dificuldades. Passou por você a ideia de abandonar tudo por conta de um grande obstáculo?
BM – Na verdade o obstáculo de todo piloto é a falta de dinheiro, de patrocínio. Muitas vezes em minha carreira eu questionei se o que estava fazendo era certo. Muitas vezes acabei sendo até irresponsável para poder lutar e acreditar que poderia viver de automobilismo comprometendo uma segurança financeira em detrimento de um sonho. Mas eu sempre acreditei em meu sonho e agradeço muito à Deus por ter me dado essa força de vontade de querer chegar onde estou e ainda buscando um maior crescimento, pois tenho feito um trabalho de ir correr nos Estado Unidos na Grand An, de fazer testes na Nascar. Eu venho buscando sempre esse sonho há muito tempo e volto e não me canso de agradecer à Deus por ter aberto esse caminho pra mim.
C&C – Como você se interessou pelo automobilismo?
BM – Meu pai (o também piloto Zeca Monteiro) foi minha maior referência. Nasci e fui criado dentro de autódromo. E depois vi a trajetória de Ayrton Senna, que até hoje é referência nesse mundo (recentemente Ayrton Senna foi eleito por um juri internacional formado por pilotos, mecânicos, chefes de equipe e jornalistas especializados como o maior piloto da Fórmula Um de todos os tempos).
C&C – Você acredita que falta categoria de formação no automobilismo brasileiro além do kart?
BM – Sem dúvida. Acho que está faltando uma categoria que preencha esse espaço entre o Kart e a Fórmula 3.
Fotos: Orlei Silva/Divulgação e Arquivo do Piloto.




