Contando a História do Automobilismo Cearense: Neném Pimentel e a construção do Autódromo Virgílio Távora
Por Robério Lessa:
Como prometido na semana passada, hoje vamos continuar contando um pouco da História do Automobilismo Cearense com a ajuda de pessoas que vivenciaram cada época. Já falamos das corridas na Avenida Beira-Mar e na pista do Pici, hoje nosso personagem vai nos levar para o Autódromo Virgílio Távora. (Clique aqui para ler os textos anteriores).
Nosso personagem também vivenciou toda essa época romântica e sua trajetória no universo das corridas se confunde com a própria História das pistas cearenses.
Essa lendária figura chama-se Tarcílio Pimentel, ou como é mais conhecido, Neném Pimentel.
Piloto, construtor de carros de corrida, advogado e pesquisador, Neném Pimentel começou a pilotar no antigo traçado do Pici e permaneceu nas competições até o ano de 1987, passando o volante para seus filhos e netos.
Foi numa manhã de sábado que Neném marcou encontro no escritório de seu neto (Stênio Pimentel), ele chegou dirigindo um Puma verde desenhado e produzido por ele mesmo, e na hora marcada, Neném deixou transparecer toda sua timidez, que, aos poucos, seria deixada de lado quando relatava os fatos de uma vida dedicada ao automobilismo cearense.
Perguntado sobre o início de sua paixão pelos carros revelou que desde menino era fascinado por aquele engenho capaz de transportar pessoas. Para ele o mundo das corridas era visto em jornais e revistas, mas foi por volta de 1960, aos 18 anos, que presenciou sua primeira corrida.
Você acompanha agora o relato de quem viu tudo isso acontecer.
“Eu ainda não corria, mas já gostava daquilo quando fui ver uma corrida que era disputada nas ruas. Foi da cabeça de José Antunes Queiroz que iniciou o automobilismo no ceará, a ele deve ser atribuído o marco fundamental para que o automobilismo se destacasse e fosse visto como um esporte em nosso estado. Ele sempre organizava corridas ao final do ano e aquilo marcava. Muitos aguardavam o ano inteiro para ver ou participar delas”.
“Na Beira-Mar muita gente da sociedade ia ver aquele acontecimento. Não havia grande preparo, quer dizer, não havia preparo nenhum nos carros, todos iam apenas com a cara e a coragem”.
“Os carros saiam do náutico em sentido anti-horário e contornava uma curva de 180 Graus nas imediações do Hotel esplanada, pegando a Abolição em direção ao Iate Clube, onde fazia a volta e entrava na Beira-Mar até o Náutico. Era uma espécie de oval, duas grandes retas com duas curvas. Logo percebeu que havia público para esse tipo de evento e, mesmo somente tendo sido realizadas duas corridas nesse traçado, era hora de levar os carros e os espectadores para um lugar mais seguro e foi dessa ideia que surgiram as primeiras corridas no Autódromo do Pici”.
“Eu era mais mecânico do que piloto. Tornei-me piloto por conta do desempenho de um primo meu. (Djalma Oliveira). Ele testava os carros que preparava e quando eu experimentava sempre fazia tempos mais rápidos do que os dele, e isso fez com que eu também me tornasse um piloto”.
“Aí comecei a correr no Pici. Meu pai, no princípio, não se mostrou muito favorável porque achava perigoso, e eu acabei ganhando justamente uma corrida que ele foi assistir. A vitória acabou quebrando mais a resistência dele em apoiar a minha iniciativa. Depois continuei correndo, usava um Karmann Guia, de fibra, naquela época você corria como pudesse. Tinha que improvisar, e muitos usavam até sacos de areia dentro do carro para dar maior equilíbrio nas curvas. Era um tempo bom, as corridas eram organizadas pelo Automóvel Clube do Ceará que era presidido por Luiz Queiroz Campos (jornalista, escritor e chefe de equipe”).
“A pista do Pici foi uma luta, ela deveria ser modernizada, porque aconteceram acidentes, mas com a quebra da Pan Air, que deu os terrenos como garantia ao Banco do Brasil e este, por sua vez, cedeu ao DNOCS e também à Universidade Federal do Ceará, ficamos sem um lugar para correr”.
“Nós perdemos tempo esperando recapear o Pici. Era preciso investir em maior segurança para os pilotos e para o público. Ninguém queria ver um acidente mais grave, o que era uma diversão competitiva passou a oferecer risco para quem ia ver, mas não deu certa a opção inicial pelo Pici”.
“Foi quando surgiu a ideia de comprar um terreno no Eusébio”.
Com a idéia cada vez mais forte de criar no município vizinho o tão sonhado autódromo houve a união de todos para que a ideia não se transformasse em poeira. Era preciso mobilizar pessoas certas e não deixar passar aquele momento como relata Neném Pimentel.
“Assim a Associação dos Pilotos Volantes de Competição Ceará se transformou em uma empresa, a ideia foi para facilitar a compra de um terreno de um sítio com 33 hectares. Eu fui o primeiro presidente da empresa com 90% do Capital”.
“A minha ideia era exatamente a de comprar o terreno e, depois, com a movimentação, ir vendendo as ações e repassar as ações para restituir o meu capital, mas foi ao contrário, na medida em que o autódromo era construído a coisa ia ficando mais pesada, ia precisando colocar mais e mais dinheiro”.
“O autódromo, em sua construção, só dava prejuízo e precisávamos de apoio para ver aquele sonho se tornar realidade, foi quando o Manoel Franklin de Castro Gondim (ex-prefeito de Jaguaribe), um amigo da turma toda e que era ligado ao governador Virgílio Távora intermediou um encontro na casa do Virgílio”.
“Literalmente invadimos a casa do governador pela cozinha. Foi do Manoel a idéia de pedirmos ajuda ao Virgílio. Lembro bem do dia em que entramos pela cozinha da casa dele, na Aldeota, eram umas nove pessoas como Manoel à frente. Aquilo foi no final de 1968, comigo e com o “Manoel” estavam o João Quevedo, Armando Barbosa Lima, Baiano, Marcelo Vilar, e outros”.
“Manoel explicou a história do autódromo e, na mesma hora Virgílio (foto ao lado) pegou o telefone e ligou para o Ministro dos transportes, o Mário Andreazza e disse”. – “Quero que você autorize o Amílcar (irmão de Virgílio e diretor do Departamento Nacional de Estradas e Rodagens – DNER). Você autoriza o Amilcar fazer a pista desses meninos que “invadiram” minha casa e que são pessoas de confiança e cumpridora dos deveres, são pessoas de produção, de trabalho”.
“Ao desligar o telefone Virgílio assegurou a palavra do Ministro, mas recomendou que apenas duas pessoas fossem falar com o Amílcar, pois, segundo ele, era uma pessoa muito “braba””.
“Em companhia do Marcelo Vilar fui falar com o Amílcar Távora que autorizou o rápido envio de uma máquina para o terreno no Eusébio”.
“Nessa história toda, o Virgílio só pediu para que fizéssemos a inauguração junto da inauguração da BR 116, que ele estava engajado junto ao Andreazza para a ligação entre o Sul e o Nordeste. Assim seria importante aproveitar as autoridades presentes para inaugurar as duas obras com a realização da primeira corrida no novo autódromo”.
“Nós tínhamos de correr com a obra e nisso contamos com o apoio do Luiz Severiano Ribeiro, proprietário de uma rede de cinemas, responsável pela divulgação da corrida inaugural nos boletins noticiosos exibidos entre uma sessão e outra dos filmes. Isso fez com que criasse muita expectativa e no dia da inauguração estavam muitas autoridades, foi um sucesso”.
“A primeira pista tinha apenas uma recapagem de MC Zero, que é uma espécie de pré-asfalto. Ele serve para ligar o solo compactado com o asfalto definitivo. O traçado era composto por cinco curvas e tinha 2500 metros (2,5 Km) de extensão”.
“O Estácio Brígido conseguiu anunciantes que colocaram placas no estacionamento. Fizemos uma arquibancada, sempre com a ajuda dos amigos. Tivemos ainda o apoio de muita gente e algumas empresas como Grupo J.Macedo, a Shell, e a Pirelli”.
“A inauguração aconteceu no dia 12 de janeiro de 1969. A sociedade cearense estava toda lá, políticos, empresários, comandantes das forças militares e muita gente. Naquele dia o ministro Andreazza notou que alguns pontos já precisavam de asfalto e chamou o então prefeito de Fortaleza, José Walter, ao qual solicitou que fizesse o asfaltamento da pista, no que fora atendido, mesmo sendo a pista em outro município”.
“A corrida trouxe pilotos de vários estados e coube a um baiano escrever seu nome na história do autódromo vencendo a primeira corrida no Virgílio Távora. Esse baiano se chama “Lulu Geladeira” (Luís Pereira dos Santos), que pilotando um Puma deixou os cearenses sem a primeira conquista dentro de casa”.
“A prova teve o nome de Grande Prêmio Ministro Mário Andreazza. Foi contou com 16 pilotos e foi disputada em 65 voltas”.
Passada a inauguração e a primeira disputa no solo nordestino era preciso organizar os campeonatos. Havia de ter uma regulamentação. Foi o início da padronização. Muitos corriam com fusca, mas com o motor mexido, pneus radiais como conta Neném Pimentel.
“Com a inauguração do autódromo foi que a CBA fez os regulamentos e passamos a fazer as corridas. Fizemos provas de Fórmula VW. Eram provas ao nosso modo (com motor 1.6), depois a Volkswagen financiou a segunda corrida com motor 1.3 com regulamento da VW, foi uma época em que corri quatro campeonatos”.
Ainda no ano de 1969, foi disputado o Grande Prêmio do Ceará, no dia 19 de outubro. Foi uma corrida que mobilizou muita gente. Era uma espécie de questão de honra mostrar que era possível fazer outro evento grandioso após a inauguração da pista. Assim, aqueles mesmos que se uniram em torno da construção da pista batalharam para angariar recursos das mais diversas fontes. Buscaram aporte financeiro junto às administrações dos governos de vários estados nordestinos (Ceará, Paraíba, Pernambuco, Maranhão, e Rio Grande do Norte) oferecendo uma boa premiação para os três primeiros colocados. Logo se confirmou a presença de vários pilotos como Ubaldo Lolli; Emilio Zambello; Marivaldo Fernandes; Luis Fernando Terra Smith; Silvio Toledo Pisa; Rafele Rosito; Chico Landi; Antonio Carlos Avallone; Paulo César Lopes; todos de São Paulo. De Brasília vieram Ênio Garcia; Toninho Martins; Alex Dias Ribeiro; João Luis da Fonseca; Olavo Pires; George Pappas; André Gustavo; Carlos Alberto Brás; Paulo César Lopes; José Paulo; Dirceu Bernardon; e Waldir Lomazzi.
Do Rio de Janeiro os irmãos Marcelo e Mário de Paoli; Fernando “Feiticeiro” Pereira; Carlos Erymá; Milton Amaral; José Morais; Mário Olivetti; e Lair Carvalho. Todos eles se juntaram aos cearenses Arialdo Pinho; Carlos Fernandes; Walkimar Santos; João Quevedo; Fernando Ary; Francisco Lameirão; Neném Pimentel; Samuel Cohen; Armando Barbosa; Aníbal Feijó e mais os baianos John Brussel e José Luis Bastos; os sergipanos Arivaldo Carvalho e Eduardo Pina e os pernambucanos Joca Ferraz. A prova teve a duração de 200 voltas foi vencida pela Alfa GTA de Marivaldo Fernandes e Luis Fernando Terra Smith, após 4 horas e 38 minutos de corrida, abiscoitando assim o desejado prêmio do primeiro lugar, após o abandono dos principais favoritos.
“Vinha gente de fora, vinha gente de São Paulo. Era uma disputa muito boa, todos virando com tempos parecidos. Élcio Pellegrini era um dos que costumava vir de São Paulo para correr conosco”.
Emerson Fittipaldi disputou uma corrida na pista cearense. Foi uma disputa patrocinada pela BUA, Bhristsh United Airline, que organizara um torneio mundial de Fórmula Ford, com carros fabricados na Europa e trazidos para o Brasil. Eram os mesmos que eles corriam em Interlagos.
“Foi em 1970 que aconteceu uma corrida de Fórmula Ford. Era uma etapa de um campeonato que já havia realizado corridas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Foi a primeira prova internacional realizada no Ceará e esta vencida pelo Emerson Fittipaldi”.“No início havia piloto que trazia a própria água, achando que aqui não iria encontrar. As pessoas passaram a enxergar o Ceará de outra forma, perceberam que aqui também havia pessoas capazes de fazer caros tão competitivos quanto os de quaisquer lugares do país”.
“Para essa corrida os carros chegaram ao Eusébio apenas na sexta-feira para ficarem prontos para correrem no domingo, foi uma verdadeira operação de guerra. Os de fora não queriam que a corrida acontecesse, mas todos nós nos ajudamos, reunimos todos os que trabalhavam nos carros e conseguimos entregar os carros no tempo combinado. E deu no que deu, vitória de Emerson e mais uma batalha vencida por aqueles que faziam o nosso automobilismo”.
Aos 75 anos, Neném Pimentel já não frequenta mais o Autódromo Virgílio Távora com a mesma frequência de antes, mas continua acompanhando o automobilismo cearense de perto. Hoje, seu legado não pertence apenas aos seus filhos, dos quais dois são pilotos (Minho e Tarco Pimentel) e netos, dos quais um é piloto (Stênio Pimentel), mas sim a inúmeros pilotos que disputaram e ainda disputam provas na pista que ajudou a construir.
Fotos: Arquivo pessoal de Neném Pimentel/Câmara dos Deputados/Robério Lessa




