O Carros e Corridas apresenta agora uma entrevista, exclusiva, com Gil de Ferran.
Nascido na França, em 11 de Novembro de 1967, Gil veio para o Brasil quando tinha quatro anos de idade. Em solo brasileiro começou a correr de kart ainda criança.
Em 1987 disputou a Fórmula Ford e foi campeão brasileiro. Em 1991 foi para a Fórmula Três, e foi campeão na Fórmula Três Britânica, e depois foi para a Fórmula 3.000.
No ano de 1995 ingressou na Fórmula Indy, e, em 2000, após cisão da cetgoria (dividida entre Indy Racing League – IRL e Champ Car) assinou com a Penske na Champ Car, conquistando dois títulos (em 2000 e 2001) e, em 2003, na IRL venceu as 500 Milhas de Indianápolis.
Após sair da Indy, Gil passou pela Fórmula Um, como dirigente da Honda, atuou como chefe de equipe e piloto na Le Mans Series e, em 2010 comandou sua própria equipe na F-Indy.
Acompanhe agora essa entrevista ao jornalista Robério Lessa.
Carros e Corridas – Gostaria de iniciar esta entrevista falando sobre a Fórmula Indy. O Brasil já torceu o nariz para a categoria desbravada por Emmerson, e que você ajudou a popularizar. Hoje vemos outro brasileiro na categoria. A Indy pode ser considerada uma das maiores categorias do Automobilismo Mundial?
Gil de Ferran – acredito que sim, por vários aspectos. Sua popularidade e competitividade dos pilotos e equipes justificam tal classificação.
CeC – Você teve uma carreira vitoriosa na Champ Car, que mais tarde se uniu a IRL. De 1995 a 2003 você venceu disputou 130 corridas, venceu 12 vezes, conquistou dois títulos (2000 e 2001), e conquistou a mais importante corrida do mundo em 2003, em sua quarta participação. Com todas essas conquistas, você acha que ainda falta reconhecimento aqui no Brasil?
Pergunto isso porque penso ser supervalorizada a Fórmula Um, a ponto das pessoas massacrarem pilotos talentosos que não conquistaram títulos na F-1, e percebo, principalmente por parte da chamada grande mídia, uma falta de atenção e respeito a pilotos como você, o Helio Castroneves, Tony Castroneves, Felipe Giafonne, dentre outros que competem ou competiram nos Estados Unidos.
Gil –Bem…é muito difícil responder essa pergunta! Quando competia e estava sempre na mídia, minha notoriedade no Brasil era naturalmente mais elevada do que e hoje, estando afastado há alguns anos. A falta de consistência ao longo dos anos no televisionamento da categoria no Brasil não contribuiu para sua popularidade.
CeC – Seu primeiro título na Indy (em 1995), você chegou em terceiro lugar, tendo no pódio do GP de Fontana, Christian Fittipaldi (vencedor da corrida) e Roberto Pupo Moreno (segundo colocado). Qual foi a sensação dessa conquista, especialmente tendo pilotos brasileiros no pódio?
Gil – Para falar a verdade, na época não estava nem aí com isso! Só estava muito contente e satisfeito por ter alcançado um dos meus maiores objetivos de vencer o título da temporada.
CeC – Você teve a oportunidade de conviver com dois grandes nomes do automobilismo mundial. Roger Penske e Jim Hall. Qual a grande lição que você leva deles para sua vida e para o automobilismo?
Gil – Não tem espaço suficiente para descrever todas as lições que aprendi, e necessário um livro! De fato, grande parte do meu sucesso como piloto e pessoa se deve ao foto te ter tido a oportunidade de trabalhar e conviver com pessoas de altíssimo nível, das quais pude aprender muito.
CeC – Você atuou pela equipe do filho de Jackie Stewart, e conviveu com o tricampeão da Fórmula Um. Como foi conviver com essa verdadeira lenda do automobilismo? Como ele te ajudou?
Gil – Jackie e Paul foram e ainda são grande parte da minha vida. A família Stewart e muito importante para mim. Uma das lições que aprendi com o Jackie foi sobre a importância de controle emocional na otimização do desempenho de um piloto. Como sabe nos Brasileiros temos dificuldades com isso!
CeC – Quando surgiu a ideia de ter uma equipe na Indy?
Gil – Quando parei de pilotar, queria sair do cockpit e não abandonar o automobilismo, sempre quis manter meu envolvimento. Foi uma questão de encontrar a oportunidade certa para formar uma equipe. Hoje infelizmente, não consegui angariar fundos suficientes para montar e manter uma equipe competitiva ao longo dos anos, portanto, no momento estou de fora.
CeC – A falta de apoio para levar sua equipe adiante te deixou frustrado?
Gil – Sim e não. Obviamente gostaria de estar no grid com uma equipe de primeira, mas, por outro lado continuo trabalhando em vários projetos que me mantém ocupado, alerta, contente e entusiasmado.
CeC – A morte de Dan Wheldon trouxe a discussão em torno da segurança da categoria. Muitos críticos (alguns oportunistas) surgiram para “satanizar” a Indy. Você acredita que no quesito segurança ainda há de se avançar?
Gil – O automobilismo é um esporte de risco e perigoso, ponto! Infelizmente acidentes acontecem e algumas vezes com consequências trágicas. A segurança não é um lugar onde se chega e descansa, é sim um processo interminável. A segurança do automobilismo vem melhorando ao longo dos anos e deve continuar melhorando no futuro, muito investimento e pesquisa são necessários para que esse processo continue. É importante que todos envolvidos no esporte tenham um forte comprometimento com esse processo de melhora. Por outro lado, é necessário reconhecer que o esporte jamais será 100% seguro.
CeC – Ainda sobre o tema segurança. Como você encara essa questão? Ter visto acidentes como o do Zanardi, e ter sofrido alguns fez você pensar em parar de correr naquele momento?
Gil – Sempre acreditei que acidentes poderiam acontecer comigo, jamais me senti imune. Acredito que essa consciência me ajudou muito a encarar varias tragédias ao longo dos anos que, infelizmente, presenciei de perto.
CeC – Como é ter de conviver com o medo e ter de ser o mais rápido possível? Há espaço para o medo dentro da pista?
Gil – Não se pode sentir medo quando esta pilotando um carro de corrida, isso faz com que o piloto não chegue no seu limite. No carro, o único pensamento que um piloto deve ter e de como andar mais rápido. Para mim, a questão foi sempre de encarar e reconhecer os riscos que estava correndo e me perguntar se essa consciência estava atrapalhando minha performance. Correr (bem) com receio ou medo é impossível.
CeC – Você fez testes com a Williams e com a Arrows. Lembro que na época havia uma grande expectativa que você assinasse com a Arrows, já que na Williams a chance de você assumir um lugar parecia mais remota. O que fez com que você não entrasse para a Fórmula Um?
Gil – Em 93 e 94, e até mesmo durante minha carreira na F-Indy, tive varias discussões com equipes de F1. No final das contas, ou o timing das discussões não se encaixavam ou não acreditava que as equipes e ou as condições sendo discutidas me proporcionavam condições de ser competitivo.
CeC – Você carrega alguma mágoa por não ter participado da F-1 como piloto?
Gil – Não. Tive uma carreira que me trouxe muita alegria e satisfação no automobilismo.
CeC – Há muita injustiça no esporte. Na Fórmula Um, por exemplo, Roberto Moreno foi preterido por Schumacher. Você se considera ter sido vítima de alguma injustiça?
Gil – Não. Tive ótimas oportunidades no automobilismo, muitas deram certo, outras não. Assim é o mundo…bola para frente!
CeC – E sua experiência com a Honda? Como surgiu o convite para participar da equipe?
Gil – Tinha um ótimo relacionamento com a Honda desde a época que pilotava com o motor deles na F-Indy. Era o piloto de desenvolvimento principal. Desse relacionamento e respeito mutuo surgiu o convite depois de ter me aposentado como piloto.
CeC – A vitória de Button pode ser encarada como “dever cumprido” na F-1?
Gil – Foi um dia muito importante na minha carreira na F1. Button é um grande piloto e fizemos tudo certo no dia. Alias grande parte dos processos e a equipe de estratégia que criamos na época ainda existem, além de muitos dos engenheiros de pista que tínhamos ainda fazem parte do que hoje se chama Mercedes GP.
CeC – Você foi um dos pilotos do país que mostrou ser possível fazer carreira lá fora sem necessariamente partir desesperado em busca da F-1 e se submeter a carros pouco competitivos e equipes mais interessadas no dinheiro dos patrocinadores dos pilotos. Há outro caminho fora a F-1 para os pilotos brasileiros que almejam carreira internacional?
Gil – Você precisa decidir o que quer e entender quais ferramentas estão ao seu alcance para alcançar esses objetivos. Aí é uma questão de fazer o melhor que pode todos os dias. O sucesso no presente abre as portas para um futuro melhor, seja qual for sua profissão. Para mim o mais importante sempre foi correr em equipes que me davam a melhor condição possível de ser competitivo e ter sucesso, dessa maneira a responsabilidade maior do resultado recaia nos meus ombros. Tive a boa fortuna de pilotar para grandes equipes.
CeC – Você tem acompanhado o automobilismo brasileiro? Qual avaliação você faz do atual momento do esporte motor no Brasil?
Gil – Sim, embora um pouco de longe. Fico contente com o sucesso de algumas categorias Brasileiras, como a Stock Car. Mas também fico triste com baixo nível das categorias de monoposto, que sempre foram minha paixão principal.
CeC – Você é uma pessoa que valoriza a família. Como foi ter de sair do Brasil e buscar amadurecimento na Europa em 1988, após abandonar o terceiro ano do curso de Engenharia?
Gil – Foi um período muito difícil de adaptação. Deixar a família e os amigos e abandonar a educação profissional, a qual gostava, e gosto, muito foi bem complicado. Mas ao longo dos anos aprendi a apreciar outras culturas e fiz grandes amizades fora do Brasil, no fim tive e tenho uma vida feliz. Por outro lado ainda sinto falta do meu país, principalmente hoje em dia, quando o Brasil passa por um ótimo momento.
CeC – Como você avalia a ida de Barrichello para a Indy?
Gil – Vai ser ótimo para a categoria ter um piloto do nível e notoriedade do Rubens. E para ele, será a primeira vez em 20 anos que poderá ter condições de vitoria na maioria das corridas!
CeC – Você, desde criança já sonhava com o automobilismo. Tirando esse sonho de criança, quando você percebeu que queria ser piloto?
Gil – Sempre gostei de carros e corridas. Comecei a correr com 14 e tive um sucesso relativo logo de cara, isso me motivou a continuar a carreira de piloto. Embora tivesse que abandonar minha educação de engenheiro, minha outra grande paixão. Mas acabei conseguindo misturar tudo, pois trabalhei a fundo com grandes engenheiros no desenvolvimento de carros, motores e pneus, o que me trouxe grande satisfação.
CeC – Qual seria a reação do Pai Gil de Ferran ao ver que seu filho quer competir nas pistas?
Gil – Se ele escolher essa carreira vou apoiá-lo, embora com grande receio pela sua segurança! Acho que faz parte da minha função como pai, não decidir que caminho meu filho deve tomar, mas de apoiar e incentivar o caminho escolhido por ele. Só com grande paixão se obtém o sucesso e satisfação pessoal, essa paixão terá de ser descoberta por ele.
CeC – Para encerrar. O que você diria aos seus fãs e àqueles que se espelham em você para trilharem uma carreira no automobilismo?
Gil – Acelera! Mesmo se der tudo errado, pelo menos você viveu intensamente e, ao final, verá que durante esse processo cresceu e se desenvolveu!
Fotos: Arquivo Pessoal de Gil de Ferran – Cart – IRL – Team Penske – Honda F-1.




