Acompanhe mais uma coluna Velocidade do jornalista Robério Lessa.
Olá, amigos do Carros e Corridas.
O automobilismo costuma ser ingrato com aqueles que não sobem no lugar mais alto do pódio, e até mesmo aqueles que contribuem diretamente para que um piloto possa erguer o troféu de vencedor acabam passando despercebidos para a grande maioria que não consegue ter a acuidade de enxergar o trabalho de uma equipe para dar suporte aos que recebem os louros da vitória.
Na última semana, estive acompanhando os treinos preparatórios para a segunda fase do Campeonato Brasileiro de Kart, no Kartódromo Internacional Virgílio Távora, localizado na cidade do Eusébio, a 14 quilômetros da capital cearense.
Voltando meu olhar para os boxes, percebi o quanto a “moçada da graxa” (aqui vou usar esta expressão para abraçar todos os envolvidos como preparadores, mecânicos e auxiliares) se empolga ao ver seu piloto na pista. É como uma relação de criador e criatura, pai e filho, mestre e obra!
A competição fora da pista é tão acirrada e tão animada quanto aos que entram com suas máquinas velozes, cortando o traçado do solo negro em voltas rápidas.
“Você viu meu piloto? Você viu meu piloto? Engole essa… 43.85!”. É bem assim o diálogo entre a “moçada da graxa”.
Usando uma palavra bem nordestina para classificar o trabalho, eles “pelejam” o dia inteiro em busca de um mísero décimo de segundo. É a busca do “cabelo do sapo”, do algo a mais, ou a menos para fazer a diferença em uma competição marcada pelo alto nível de pilotagem e de máquinas que andam bem próximas umas das outras.
Foram nesses seis dias de treinos que conversei com grandes figuras do Kart Cearense que estão sempre dispostas a passar mais uma hora de seu dia em meio à busca de soluções e inovações para aplicar ao kart do seu piloto.
Licigleude Almeida Lima (Ju), José Maria Bezerra (Zé Maria), Rogério Ganso, Valdicarlos Costa (Valdir) Júnior Paulino, Helio Barros, Juliano Cézar Gomes (Júlio César), Guilherme Antônio Castro, Roberto Pessoa Jr. (Juquinha) e Ney Castro são alguns desses que fazem acontecer as disputas entre os competidores. Das mãos hábeis dessa turma saem as receitas de um bolo que é recheado pela desempenho do piloto.
Juliano Cézar Gomes, mais conhecido como Júlio Cézar, começou no kart antes de inaugurado o Kartódromo Júlio Ventura. Ele é do tempo em que só havia o Kartódromo da Avenida Leste Oeste (em Fortaleza), destruído para a construção de uma praça e quadras de futebol. Foi lá que conheceu o piloto Ignácio Barreira, hoje afastado das competições.
Com Ignácio, ele teve a grande oportunidade de aprender sobre as competições. Foi o então patrão, que virou amigo quem lhe encaminhou à São Paulo onde passou três meses auxiliando o preparador de Rubens Barrichello, naquela época ainda criança. “Devo muito ao Ignácio Barreira, ele acreditou em mim, investiu em meu potencial e não desperdicei a chance de abraçar essa profissão. Para mim, foi a oportunidade de minha vida poder trabalhar com o China, nosso grande mestre”, disse Júlio Cézar, que ao lado de Juquinha, Zé Maria, e Ney Castro dividem a responsabilidade na preparação dos karts da Equipe Cekart na segunda fase do Brasileiro de Kart. Os quatro vão responder pela preparação dos equipamentos de Lutianne Soares, Igor Figueiredo, Rodrigo Ventura e Elias Leite.
Juquinha (Roberto Pessoa Jr.) começou no automobilismo em 1982. Foi piloto de kart e conquistou dois títulos cearenses e um terceiro lugar no Brasileiro de Kart. Depois foi para a Fórmula Ford onde enfrentou seu maior rival nas pistas, Haroldo Scipião, que hoje preside a Federação Cearense de Automobilismo, entre os anos de 1987 e 1988. Quando decidiu deixar o cockpit para se concentrar na preparação de kart e de carros, levou toda sua bagagem como piloto, e se sente realizado no que faz.
“Eu procuro passar para o piloto o que ele precisa saber sobre o carro, ou kart. Conhecendo o equipamento ele é capaz de buscar mais o limite. Fui piloto e sei das necessidades que temos na pista, isso ajuda muito. Quando decidi enveredar pelo caminho da preparação tive a sorte de estar ao lado de grandes campeões. A gente, de fato, cria uma grande relação com o piloto e se sente responsável por ele, é como se fosse mesmo um filho, e me emociono a cada conquista de meus pilotos”, revela o experiente preparador.
Outro caso de amor ao esporte motor é o que movimenta Lucigleude, mas ninguém o chama assim, e se não fosse o codinome Ju, talvez você nunca encontrasse o preparador que não atende pelo seu nome de batismo. Ju é um caso típico do quanto a construção do Autódromo Virgílio Távora e do Kartódromo Júlio Ventura mudaram a vida de muitas pessoas na cidade do Eusébio.
Desde criança ele se interessou pelo universo das corridas, e o som dos motores rasgando a reta de 900 metros do autódromo cearense parecia música aos seus ouvidos. Assim, o garoto saia de casa e pulava o muro para estar dentro daquele mágico mundo.
Com 10 anos de idade ele se enfronhava dentro dos boxes e pedia para fazer serviços pequenos (levar água, limpar peças, e os carros). A curiosidade infantil levou o moleque a ser contratado pelo piloto Pedro Carapeba. Ano a ano crescia e aprendia o ofício que o levaria a ser um dos preparadores mais requisitados do kart no Ceará. Depois de deixar o Autódromo, Ju se dedicou aos carros pequenos com motores dois tempos e foi responsável pela preparação de campeões como Hybernon Cysne, Marcus Vinícius Kinho, e Eduardo Mourão.
Aos 34 anos, Ju pensa em vencer o maior desafio de sua carreia, que é o de ver um piloto ganhar o brasileiro de kart tendo ele como preparador. “Seria muito bom se isso acontecesse. O Kinho é um menino especial, seus dois títulos no Kart Cearense foram conquistados juntos comigo, e hoje ele está mais maduro, acredito que pode sim lutar pelo título”, disse Ju ao comentar as chances de Kinho.
Com tantos campeões que já passaram pelas duas pistas, e com tantos que ainda vão passar, é sempre bom lembrar que a “moçada da graxa” vai estar ao lado dos que sonham em alcançar o topo.
Como já disse no início desta coluna, o automobilismo, às vezes, é cruel, e é preciso lembrar daqueles que não são lembrados. Na cultura ocidental, pautada pela necessidade de criar heróis, precisamos quebrar essa cultura e dar o devido crédito a quem merece, sobretudo em esportes onde o resultado é conseguido com a soma de muitos fatores.
Valeu moçada da graxa!
Escreva pro colunista: roberio@carrosecorridas.com.br
Robério Lessa é Jornalista e editor do site Carros e Corridas.
Fotos: Robério Lessa e Arquivo pessoa-Juquinha.




