No dia três de abril de 2010 o piloto Gustavo Sondermann perdeu a vida em um acidente na primeira etapa da Copa Montana, disputada no autódromo de Interlagos. Gustavo, que tinha 29 anos, atuava pela equipe J.Star Racing, e era muito querido dentro do meio automobilístico.
O piloto foi vítima de um grave acidente na curva do café. Após ser acertado três vezes na pista, o carro de Sondermann parou. Gustavo teve traumatismo craniano grave, hemorragia cerebral difusa e fratura da primeira vértebra cervical, não resistiu aos ferimentos e faleceu.
Passados três anos do acidente, o site Carros e Corridas reproduz artigo do jornalista Tiago Mendonça, publicado originalmente no seu site pessoal (tiagomendonca.com.br). Tiago é editor do anuário AutoMotor Esporte, repórter da revista Speedway, apresentador e comentarista de Fórmula Um da rádio Jovem Pan.
Acompanhe agora o artigo Café Amargo – Por Tiago Mendonça:
Exatamente três anos atrás, eu deixei o autódromo antes mesmo de terminar meu trabalho. Gustavo Sondermann ainda estava recebendo os primeiros atendimentos, mas era bobagem se enganar. Todo mundo conhecia aquela cena. O Gustavo ia morrer. E eu não queria estar presente. Um pouco pelo sentimento de culpa. Que merda. Nós não fizemos nada, não cobramos ninguém, deixamos ele morrer.
Nós, os jornalistas especializados, a mídia. Rafael Sperafico perdeu a vida naquele mesmo ponto, a Curva do Café, cerca de três anos antes. Fatalidade. E deixamos por isso mesmo. Fatalidade. A morte é sempre uma fatalidade. Imagine o sujeito andando na rua, sofre um ataque do coração e cai duro. Fatalidade. Vai atravessar a rua e é atropelado. Fatalidade. Cai o avião da Malaysia Airlines. Fatalidade.
Não é bem assim. Gustavo morreu pela irresponsabilidade de dirigentes e entidades reguladoras. Mas outra vez não fizemos a nossa parte. Naquela semana, surgiram milhares de teorias, centenas de engenheiros propondo mudanças na Curva do Café. Charlie Whiting veio ao Brasil vistoriar a pista. Representantes da CBA se reuniram com a FIA em Paris. E a FIA resumiu em segundos o que tinha de ser feito.
Arquibancadas abaixo e construção de uma área de escape adequada. Mas péra aí, derrubar arquibancada, tirar assentos vendidos a preços exorbitantes, o lucro nosso de cada dia, aí é demais, vamos enrolar esses caras, a gente mete uma chicane meia boca e eles esquecem isso. Esquecem mesmo. Os pilotos falam mal da chicane, preferem não usar. Já vi categorias se vangloriando de poder correr contornando normalmente o Café.
Esquecem muito rápido. E para a FIA não faz a menor diferença, os eventos dela passam duas vezes por aqui, quando muito. E os pilotos de Fórmula 1, do alto de uma estupidez que não tem tamanho, dizem que ali é quase uma reta, que para eles não tem perigo. Não mesmo. A pancada de Stéphane Sarrazin em 1999 foi só uma fatalidade. A de Fernando Alonso em 2003, talvez a mais forte da vida dele, também. Fatalidade.
Então a reforma de R$ 160 milhões não precisa incluir nenhuma alteração naquele trecho. Deixa lá para os caras se esborracharem. Eles não reclamam, mesmo. Vamos mexer em coisas mais importantes: mais espaço no paddock, por exemplo, para dar mais conforto para quem nunca sentou a bunda num carro de corrida. Os pilotos se viram, estão aí pra isso. E a imprensa, coitada, nem tem coragem de falar nada.
Vai é agradecer aos políticos pela verba e dar graças a Deus que a Fórmula 1 ainda vem para cá. Dane-se o Café. Quando morrer outro a gente dá uns laudos técnicos e diz que foi fatalidade.
Desculpe, Gustavo, mas nós somos todos uns bostas.
Sobre Tiago Mendonça: Tiago é editor do anuário AutoMotor Esporte, repórter da revista Speedway, apresentador e comentarista de Fórmula Um da rádio Jovem Pan. Atuou como repórter e comentarista de automobilismo da RedeTV! entre 2005 e 2010, e desempenhou papel de comentarista convidado na Band, entre 2011 e 2013. Começou a carreira no rádio aos 14 anos de idade. Aos 16, fez sua primeira corrida de FórmulaUm, contratado como redator da equipe de comunicação do GP do Brasil.
Fotos : Fernanda Freixosa e Bruno Terena/Divulgação.
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